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Retiro da fraternidade São Boaventura: uma reflexão pascal junto à natureza  

 

Na manhã de hoje (06 de abril), a fraternidade São Boaventura visitou as instalações do Bosque da Ciência do INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – e aproveitou o local para contemplar a natureza, encontrando um ambiente favorável para meditar e refletir. O bosque está situado dentro da cidade de Manaus, é um espaço verde no meio da capital amazonense.

Em funcionamento desde 1995, o bosque conta com várias trilhas e com exposições sobre a biodiversidade da região. Serve não apenas para espalhar conhecimento sobre a Amazônia, mas para que as pessoas possam sentir a necessidade da preservação do meio-ambiente. Do ponto de vista cristão, trata-se de um lugar propício para cultivar uma educação e espiritualidade ecológica, aos moldes do que sugere o capítulo VI da Laudato Si’. Nele é possível maravilhar-se com a grandiosidade da Amazônia, literalmente pois contém árvores estupendas e a maior folha catalogada do mundo.

O espaço reserva possibilidade de contato com vários elementos da natureza amazônica. Um local bem apropriado para meditar sobre a Páscoa de Cristo e a Casa Comum. A visita ao Bosque da Ciência do INPA não apenas proporcionou uma conexão com a natureza, mas também foi um momento propício para cultivar a introspecção e a espiritualidade, nutrindo o bem-estar em meio ao ritmo frenético da vida moderna.

O Bosque da Ciência é visitado por diferentes pessoas e com diversas intenções, no entanto, uma visita como fraternidade franciscana apresenta também aspectos singulares.  A contemplação e a fraternidade com a criação são aspectos importantes do franciscanismo e uma atividade como essa desperta esses elementos no coração da Fraternidade.

Ao final do dia de recolhimento os frades retornaram para a fraternidade com um ânimo renovado pelo contato com a natureza, pela meditação do textos e por desfrutar de momentos de silêncio em meio aos cantos dos pássaros. A cada mês a fraternidade busca fazer um desses momentos de retiro para poder, em comunidade, recolher-se um pouco e pensar sobre aspectos da fé e da vida franciscana.

 

Uma reflexão Pascal

Além do contato com a irmã natureza os frades dedicaram a manhã para refletir a mensagem do Papa Francisco para a Páscoa de 2024.  A mensagem do Papa ressoa o anúncio da ressurreição, revive “o espanto das mulheres que foram ao sepulcro”. Nesse mesmo sentido estar em meio a natureza pode ajudar a sentir o reflorescimento da nova criação.

O remover da grande pedra, lembrado pelo pontífice na mensagem, ecoa hoje também nos grandes desafios da Amazônia. A mensagem demonstra ainda uma grande preocupação com os rumos da humanidade, marcada pelas guerras e os frades em retiro igualmente expressaram essa preocupação com “pedras que precisam ser movidas”.  O caminho da fraternidade em meio a inimizade, aberto no túmulo vazio, permanece como um desafio a ser abraçado em conjunto e contato com a força de Deus. Esses e demais trechos da mensagem foram comentados entre os frades.

Frei Felip Luz, OFM

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Domingo de Páscoa 2024

Nós somos cercados por sinais. Todos os dias usamos sinais para ajudar na comunicação e nos nossos afazeres. Um sinal de trânsito, por exemplo, serve para nos orientar nas estradas, para não errar o caminho e nem correr o risco de um acidente. Usamos sinais com nossas mãos para comunicar algo para as pessoas e dizer o que precisamos ou expressar um sentimento. Na Bíblia os sinais indicam que Deus está realizando algo que não é percebido por quem não faz a experiência de fé e amor. Estes sinais não são provas lógicas ou argumentos, mas apontam para uma nova realidade para quem tem fé e vive o amor.

No final da leitura do evangelho de hoje, o discípulo amado ao entrar no túmulo: “viu e acreditou, de fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura”. O que ele viu? A pedra retirada, o túmulo vazio e os panos enrolados à parte. São sinais!

Para compreender estes sinais, vamos olhar para o início deste evangelho. Foi Maria Madalena que foi primeiro ao túmulo, bem de madrugada. Ela representa toda a comunidade que não podia acreditar, pois diante da ausência do corpo de Jesus, ela diz: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram” (Jo 20, 2b). Ela e a comunidade procuram uma explicação para o sinal do sepulcro vazio.

Podemos lembrar os acontecimentos e por aquilo que a comunidade passou:

Eram pessoas pobres e simples que seguiram Jesus, acreditavam na sua palavra e nos seus sinais, apostaram no seu projeto, por isso eram capazes de deixar tudo;

Participaram da ceia quando Jesus repartiu o pão e o cálice, lavou os pés e mostrou o caminho do amor pelo sinal da partilha e do serviço. Foram tocados pelo ensinamento do amor e da promessa do Espírito Santo;

Mas, de repente, viram Jesus condenado, torturado e morto na cruz. Não só a morte de alguém que eles amavam, mas o fim do projeto de esperança, da possibilidade da libertação e da realização das promessas de Deus. Parecia que o sinal da vida era vencido pela morte.

Diante disto, foi o discípulo amado que correu mais depressa ao sepulcro, ele viu e acreditou. Ele foi o discípulo que Jesus amava e foi justamente o amor que o fez correr mais depressa. Então ele representa a comunidade que não compreende, mas, ao mesmo tempo, é capaz de acreditar que o amor é mais forte que a morte. A explicação para o sepulcro vazio é justamente a vitória da vida.

Assim, o sinal da ausência de Jesus no sepulcro se tornou uma oportunidade de acreditar. Foi a partir deste sinal que os discípulos compreenderam que Jesus ressuscitou e seu projeto de amor venceu. Assim, os sinais da ressurreição são justamente os sinais de fé e amor. Foi a fé e o amor que venceram o poder romano que condenou Jesus a morte, o amor é mais forte que a violência. A fé e o amor venceram os fariseus que não podiam acreditar na superação da Lei. A fé e o amor venceram a sociedade que exclui os pobres, os aleijados e leprosos e que promove a intolerância e a indiferença, pois em Jesus todos têm esperança de vida nova. Foram estes os sinais do amor que o discípulo viu e por isso acreditou. Assim a comunidade testemunhou e começou a pregar, a viver o projeto que Jesus anunciava e viver os sinais da ressurreição.

Nós também somos capazes de acreditar na ressurreição que significa não simplesmente superar dúvidas de fé, mas manifestar os sinais da ressurreição. E o maior sinal da ressurreição é o amor.  O amor que vence a sociedade violenta em que vivemos e é capaz de viver a solidariedade. É este amor que vence as desigualdades sociais, a intolerância e a indiferença para vivermos uma verdadeira amizade social. É este amor que vence a destruição da vida e da criação, capaz também de respeitar toda a vida e promover ações de justiça e fraternidade. Enfim é o amor que vence a morte e a fé que vence as dúvidas.

Então, nós somos o discípulo amado, capazes de correr, viver o amor e manifestar os sinais da ressurreição. Por isso, lembramos a resposta do salmo de hoje: “Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos”. DOMINGO DA PÁSCOA – 2024

Nós somos cercados por sinais. Todos os dias usamos sinais para ajudar na comunicação e nos nossos afazeres. Um sinal de trânsito, por exemplo, serve para nos orientar nas estradas, para não errar o caminho e nem correr o risco de um acidente. Usamos sinais com nossas mãos para comunicar algo para as pessoas e dizer o que precisamos ou expressar um sentimento. Na Bíblia os sinais indicam que Deus está realizando algo que não é percebido por quem não faz a experiência de fé e amor. Estes sinais não são provas lógicas ou argumentos, mas apontam para uma nova realidade para quem tem fé e vive o amor.

No final da leitura do evangelho de hoje, o discípulo amado ao entrar no túmulo: “viu e acreditou, de fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura”. O que ele viu? A pedra retirada, o túmulo vazio e os panos enrolados à parte. São sinais!

Para compreender estes sinais, vamos olhar para o início deste evangelho. Foi Maria Madalena que foi primeiro ao túmulo, bem de madrugada. Ela representa toda a comunidade que não podia acreditar, pois diante da ausência do corpo de Jesus, ela diz: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram” (Jo 20, 2b). Ela e a comunidade procuram uma explicação para o sinal do sepulcro vazio.

Podemos lembrar os acontecimentos e por aquilo que a comunidade passou:

Eram pessoas pobres e simples que seguiram Jesus, acreditavam na sua palavra e nos seus sinais, apostaram no seu projeto, por isso eram capazes de deixar tudo;

Participaram da ceia quando Jesus repartiu o pão e o cálice, lavou os pés e mostrou o caminho do amor pelo sinal da partilha e do serviço. Foram tocados pelo ensinamento do amor e da promessa do Espírito Santo;

Mas, de repente, viram Jesus condenado, torturado e morto na cruz. Não só a morte de alguém que eles amavam, mas o fim do projeto de esperança, da possibilidade da libertação e da realização das promessas de Deus. Parecia que o sinal da vida era vencido pela morte.

Diante disto, foi o discípulo amado que correu mais depressa ao sepulcro, ele viu e acreditou. Ele foi o discípulo que Jesus amava e foi justamente o amor que o fez correr mais depressa. Então ele representa a comunidade que não compreende, mas, ao mesmo tempo, é capaz de acreditar que o amor é mais forte que a morte. A explicação para o sepulcro vazio é justamente a vitória da vida.

Assim, o sinal da ausência de Jesus no sepulcro se tornou uma oportunidade de acreditar. Foi a partir deste sinal que os discípulos compreenderam que Jesus ressuscitou e seu projeto de amor venceu. Assim, os sinais da ressurreição são justamente os sinais de fé e amor. Foi a fé e o amor que venceram o poder romano que condenou Jesus a morte, o amor é mais forte que a violência. A fé e o amor venceram os fariseus que não podiam acreditar na superação da Lei. A fé e o amor venceram a sociedade que exclui os pobres, os aleijados e leprosos e que promove a intolerância e a indiferença, pois em Jesus todos têm esperança de vida nova. Foram estes os sinais do amor que o discípulo viu e por isso acreditou. Assim a comunidade testemunhou e começou a pregar, a viver o projeto que Jesus anunciava e viver os sinais da ressurreição.

Nós também somos capazes de acreditar na ressurreição que significa não simplesmente superar dúvidas de fé, mas manifestar os sinais da ressurreição. E o maior sinal da ressurreição é o amor.  O amor que vence a sociedade violenta em que vivemos e é capaz de viver a solidariedade. É este amor que vence as desigualdades sociais, a intolerância e a indiferença para vivermos uma verdadeira amizade social. É este amor que vence a destruição da vida e da criação, capaz também de respeitar toda a vida e promover ações de justiça e fraternidade. Enfim é o amor que vence a morte e a fé que vence as dúvidas.

Então, nós somos o discípulo amado, capazes de correr, viver o amor e manifestar os sinais da ressurreição. Por isso, lembramos a resposta do salmo de hoje: “Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos”.

 

Frei Gregório Joeright, OFM

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O Tríduo Pascal no olhar das comunidades

Fotos do Arquivo da Paróquia São Francisco em Monte Alegre – PA 

O Tríduo Pascal é celebrado vivamente todos os anos pelas comunidades em muitos lugares do mundo. Muitos escritores de muitas épocas já escreveram sobre essas liturgias, mas nossa intenção neste texto é mostrar o “olhar das comunidades” e captar os sentimentos que a celebração anual da páscoa desperta no povo, especialmente entre os mais simples.

Este tríduo celebra o centro de toda a vida do Senhor Jesus, pela salvação e libertação da humanidade. Ele é o ponto alto da vida das comunidades. Mas, nem sempre detemos o olhar naquilo que esses ritos nos dizem, muitas das vezes estamos mais preocupados em “fazer acontecer” do que em “aproveitar o momento”.

Ao falar do tríduo pascal recordamos o empenho que sempre os grupos dedicam para celebrar bem esse momento de fé. São pessoas que muitas vezes enfrentam distâncias para participar dessas liturgias e reavivar a sua caminhada como membro da Igreja. São dias intensos de orações, reflexões, recolhimento, memória e participação do povo de Deus, que caminha, celebra e segue os passos de Jesus. É importante conhecer cada dia do Tríduo pascal, pois é fundamental para nós discípulos-missionários, conhecer os passos, as ações e a presença libertadora de Deus, na vida de Jesus e das comunidades.

O Tríduo Pascal revela a intensidade do amor de Deus, que se encarna entre nós na pessoa de Jesus, e se resume nesses três abençoados dias celebrativos, como ensinamentos, memória para nunca ser esquecida, vitória sobre a morte e prosseguimento da missão. Nós somos convidados a passar da paixão, morte e assumir corajosamente a ressurreição de Jesus, na vida particular e na comunhão da comunidade em favor dos pequenos. Cada dia, traz ensinamentos, ações e compromissos, pois o Tríduo Pascal possibilita uma conversão:

Quinta feira Santa – Na manhã da quinta-feira santa (ou em outra ocasião conforme necessidades pastorais) nas catedrais do mundo todo é celebrada a missa do Crisma. Nesta liturgia ocorre a consagração do crisma e a bênção dos óleos dos enfermos, dos catecúmenos. Após a homilia, os presbíteros fazem a renovação das promessas feitas no dia da ordenação. Em unidade, o povo de Deus celebra  a eucaristia e recorda a importância do sacerdócio ministerial como dons de Cristo, o ungido de Deus Pai.

Fotos do Arquivo da Paróquia São Francisco em Monte Alegre – PA

Mas o Tríduo Pascal começa mesmo na parte da noite, com a missa da Ceia do Senhor, conhecida como “Missa do lava-pés”. Estão bem presentes o memorial da Páscoa, tanto a passagem para libertação vivida pelos judeus como a entrega de Jesus e sua passagem da morte para a ressurreição. Nessa liturgia as comunidades se reúnem para a Ceia com Jesus. Juntos escutam o relato de Paulo sobre a instituição da eucaristia, presente na Carta aos Coríntios. Nesta celebração, temos também o rito do lava-pés, que apresenta o gesto de Jesus que ensina a importância do serviço. Para as comunidades, esta celebração é um verdadeiro testemunho e ensinamentos de Jesus, que se doa, que serve, que se torna igual, que desce para lavar os pés.

Sexta-feira Santa – É o segundo dia do tríduo pascal. É o dia da Páscoa da Cruz. É um dia em que muitas pessoas se unem para celebrar em comunidade a Paixão do Senhor, a sua morte de cruz em favor da libertação integral do gênero humano. O silêncio já chama a atenção das pessoas. Dá de sentir a simplicidade e despojamento que mexem com cada comunidade resgatando o sentido de dar a vida em favor dos irmãos e irmãs. Para muitos pode ser o dia de fazer um gesto de carinho em direção da cruz, mas essa simples atitude exige muito de nós diante de todos os sofredores da terra.

A entrega de Jesus é redentora, e seu sofrimento na Cruz grita aos ouvidos das comunidades que contemplam o Bom Jesus, que padeceu por nosso amor. Ele de fato, amou até o fim (Jo 13) e nós ficamos sem palavras diante desse grande mistério. Nesse dia, não se celebram os sacramentos, nesta “pausa” a Igreja realiza a ação litúrgica da Paixão do Senhor. Celebramos a sua palavra, contemplamos a cruz e recebemos a eucaristia (com as hóstias da missa da ceia do Senhor). Nas partes dessa liturgia Na cruz libertadora recebemos e aprendemos que Jesus sofreu a paixão do amor de uma forma intensa, infinita, doando sua própria vida pela vida dos seres humanos e o sangue derramado na cruz purifica é o sangue salvador.

Sábado Santo – A manhã desse dia é marcada pelo “profundo silêncio” e tarde pelo clima da espera. À noite o povo se reúne para a celebração da grande Vigília, como as antigas comunidades chamavam: “a mãe de todas as celebrações”. É o dia da vigília pascal, na espera da ressurreição de Jesus Cristo, comemoração da ressurreição do Cristo, a renovação da esperança das comunidades que acreditam na vitória de Jesus sobre a morte. É a celebração da luz que vence as trevas, por isso, começa com o acendimento do fogo novo. Essa vigília é um louvor ao Deus da vida e um canto de exultação com Cristo que ressuscitou dos mortos.

A liturgia contém várias simbologias e significados profundos, que traz presente à Páscoa do Senhor, a sua passagem da morte para a vida. A Vígilia é celebra ao redor da luz, da Palavra, da água e da Eucaristia.  É uma liturgia repleta de comunicação e onde podemos beber da Páscoa a grande fonte da fé e da vida das comunidades.

Esta celebração faz memória de toda a caminhada do povo de Deus guiada e acompanhada pelo poder de Deus. Na liturgia da Palavra, vemos como uma visão geral dos acontecimentos salvífico que começa apresentando a criação (Gênesis), a saída da escravidão para a libertação (êxodo), a animação da fé e da esperança que é renovada e alimentada pelos profetas, chegando ao Novo Testamento que nos presenteia com a leitura de Romanos 6, 3-11, dizendo que somos Batizados e com o Batismo morremos para o pecado e ressuscitamos com Jesus para a vida nova. Esta caminhada de sofrimentos, lutas, resistências e Vitórias, é motivação para reanimar nossas comunidades a se manterem fiéis diante das dificuldades, na certeza da vitória de Cristo Jesus.

É a noite da certeza, da confirmação suprema da Vitória de Jesus, vencedor das trevas, de todo mal, de toda dominação, de todo tipo de morte. A vida triunfou, aleluia!. Nos domingos seguintes, vamos fazer a festa da Páscoa do Senhor, através das celebrações do ciclo pascal. Pois Cristo está vivo e caminha conosco, com nossa Igreja, com nossas comunidades, abrindo os olhos e indicando o caminho para os discípulos missionários dos dias atuais.

Celebrar em comunidade o Tríduo Pascal é lembrar que não vivemos nossa fé isolados, mas como pessoas que se unem ao redor da memória viva de Jesus. A liturgia do Tríduo reaviva ainda em nós o compromisso com o Reino, a busca da profecia e o ardor missionário. Ao celebrar Jesus que passa da morte para vida e que caminha conosco, recordemos aquelas realidades ainda sem “Páscoa” e a nossa tarefa de construirmos um mundo mais fraterno. Especialmente neste ano, rezemos pela paz entre os povos e pela amizade social.

Ao festejarmos Cristo, nossa Páscoa recordamos e fazemos presente a sua doação total, seu corpo entregue e seu sangue derramado. O memorial do Mistério Pascal marca a cada um de nós particularmente e em coletivo como pessoas que buscam em Cristo o sentido das suas vidas. E essa memória do Senhor se associa com tantas pessoas que também deram sua vida para o bem comum, daqueles que em nossos bairros defendem os direitos de todos, dos que se preocupam com a natureza. O Tríduo Pascal é uma celebração que ilumina a existência concreta que toca cada um de nós. Que esse Tríduo, nos olhos das comunidades, seja possibilidade de vida nova, de celebrar o reflorescimento da esperança que vence toda dor e exclusão.

Ângela Tereza Corrêa

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Mensagem do Ministro Custodial para o Curso de Franciscanismo 2024

 

Foto: ofmsantoantonio.org

O Ministro Custodial  Frei Edilson Rocha, enviou mensagem aos participantes do Curso Interprovincial  de Franciscanismo 2024, que acontece na Cidade de Canindé (CE). A Custódia São Bendito da Amazônia é uma das entidades que anualmente realiza essa formação com frades do tempo da profissão temporária. Participam do Encontro, em nome da Custódia, os frades professos temporários o secretário para formação e estudos Frei John Araújo. Abaixo você pode conferir o conteúdo da mensagem envida por Frei Edilson.

Carrego no meu corpo os estigmas de Jesus” (Gal 6, 17)

Tocados pelas chagas de Cristo, abracemos os chagados do nosso mundo.

Santarém, 27 de janeiro de 2024

Caríssimos irmãos reunidos no encontro de Franciscanismo em Canindé, CE,

Paz e todo Bem!

Desejo que este vosso encontro, que já está nos últimos dias, tenha sido muito proveitoso para todos, com uma experiência de convivência fraterna e reflexões muito enriquecedoras a respeito da herança espiritual de nosso seráfico pai São Francisco, junto a este Santuário Franciscano que evoca as sagradas chagas de Cristo impressas no corpo santo de São Francisco de Assis!

O maior tesouro espiritual que São Francisco nos legou é justamente o seu testemunho de vida apaixonada por Cristo, especialmente pelo Cristo nu e crucificado, para usar a expressão do próprio santo nosso fundador, paixão expressa no próprio corpo do pobrezinho de Assis, nas chagas esculpidas pelo Serafim Crucificado, como que coroando a experiência mística profunda de imersão no mistério da Cruz, morte e ressurreição de Jesus.  Este ápice da vida de Francisco identificada com o Crucificado também é o ponto de chegada de uma vida profundamente comprometida no acolhimento e no abraço aos estigmatizados deste mundo, como bem o narra São Francisco em seu testamento, lembrando do abraço no irmão leproso, símbolo da humanidade mais chagada e estigmatizada de seu tempo e de seu mundo: os mais pobres entre os pobres.

Espero que todos vocês voltem destes dias de encontro fortalecidos em sua vocação de irmãos e menores – irmãos de todos e todas as pessoas – animados do mesmo espírito que conduziu São Francisco ao encontro do Cristo que se manifesta de tantos modos, mas sobretudo na humanidade empobrecida e sofredora, na qual podemos contemplar os corpos chagados de tantos irmãos e irmãs. Nesta contemplação, possamos todos aprofundar a nossa paixão pelo Cristo e a paixão pela humanidade, como dimensão inerente à nossa vocação de consagrados.  Contemplar os estigmas de São Francisco, neste ano em que celebramos o oitavo centenário dos estigmas do pai seráfico, fortaleça em vocês e reavive em todos nós, frades menores, o compromisso de viver a fraternidade entre nós e com todos os irmãos e irmãs com quem nos encontramos pelo nosso caminho. Não podemos reter para nós estes bens espirituais que o Senhor nos dá como Graça. Por isso, esperamos que vocês partilhem com todos, na missão evangelizadora, o que recebestes do Senhor, como ele mesmo nos diz: “De graça recebestes, de graça deveis dar” (Mt 10: 6).

Todos vocês, queridos irmãos, sois a nossa esperança e o nosso futuro! Que o Senhor Jesus, Crucificado e Ressuscitado, ilumine vocês e conceda a todos vocês todos os bens espirituais com que agraciou São Francisco e Santa Clara de Assis, junto com generosidade, conversão, perseverança, fidelidade na missão evangelizadora!

Meu abraço alegre e fraterno, desejando que todos vocês sejam abençoados com ótimas viagens de retorno às suas casas e às atividades próprias deste tempo em suas vidas, com muito sucesso!

Fraternalmente,

Frei Edilson Rocha, OFM

Custódio

 

 

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Mensagem do Ministro Geral para o Curso de Franciscanismo 2024

Prossegue no Santuário de Canindé a edição 2024 do Curso Interprovincial de Franciscanismo que une as entidade OFM do Norte e Nordeste. Na tarde de hoje (23) os participantes do Curso receberam uma mensagem especial do Ministro Geral, Frei Massimo Fusarelli. A carta expressa a alegria desse encontro ser realizado no santuário de Canindé e ainda por ser uma oportunidade de dar passos no caminho formativo. Na mensagem, Frei Massimo comenta ainda o tema e lema escolhidos para o encontro. Veja a seguir o conteúdo da mensagem na íntegra.

 

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Curso interprovincial de Franciscanismo 2024 em Canindé

Frades do tempo da profissão temporária e formadores das entidades do Ordem do Frades Menores no Norte e Nordeste mais uma vez se encontram para o Curso Interprovincial de Franciscanismo. Desta vez o Curso será realizado na cidade cearense de Canindé. O tema desta é “Nos estigmas de São Francisco, somos chamados a abraçar os irmãos” e o lema é “Recebestes de graça, dai de graça” (Mt 10,6). Os frades da fraternidade São Boaventura (Manaus – AM) da Custódia São Benedito da Amazônia estão presentes no evento. Esses dias de estudo, oração e reflexão tem o objetivo de ajudar mais ainda na formação dos jovens frades. Acompanhe a seguir um pouco da explicação sobre a logomarca do evento.

APRESENNTAÇÃO DA LOGOMARCA

  • Dois personagens em cima simboliza o abraço, um frade representado a missão e do outro uma pessoal que acolhe o missionário e abraça sua vocação e missão, tudo acontece no centro do tau, demostrando a centralidade da vida missionaria franciscana.
  • As mãos que se cruzam símbolo da ordem franciscana a mão de Jesus e a outra de São Francisco das Chagas, não como na original mas meio solta pra demostrar que Francisco foi o primeiro ao iniciar a ordem mais hoje somos chamados a configuramos com o Crucificado.
  • Ao fundo a Basílica de S. Francisco das Chagas como símbolo mais forte de Canindé, cidade que abraça o carisma franciscano, como a missão dos frades menores a mais de 100 anos.
  • As cores simbolizam o ardor desta terra os amarelos o Ceará quente com o azul contrastando nos remetendo ao céu, as chuvas, a Maria Senhora das Dores e Mãe de todas as Graças.

Informações: Equipe de Coordenação do Curso

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Custódia São Benedito acolhe 7 candidatos para a FAV 2024

Frei Rômulo Canto com grupo de aspirantes

 

Na manhã do dia 20 de janeiro, na capela do Convento São Francisco, em Santarém, foi realizada a celebração de acolhida de sete jovens  que farão a experiência da FAV (Fraternidade de Acolhida Vocacional) neste ano de 2024. A liturgia contou com a presença dos frades da fraternidade e foi presidida pelo animador custodial do cuidado pastoral das vocações, Frei Erlison Campos. Celebrando a memória de Santa Maria no Sábado, foi recordada a resposta de Maria ao projeto de Deus como inspiração para esses jovens aspirantes à vida religiosa. A acolhida no início da celebração destacou que o carisma franciscano “continua encantando muitas pessoas”. Na Eucaristia todos foram também convidados a rezar pela própria vocação e por quem ajuda a viver o caminho vocacional.

 

A chamada e ingresso à FAV foi feita logo após a proclamação do Evangelho. Frei Erlison chamou a cada um dos vocacionados pelo nome e por ordem alfabética. Em seguida os apresentou a Frei Rômulo Canto, conselheiro e guardião do Convento, que os acolheu em nome do ministro custodial, Frei Edilson Rocha. Os sete jovens manifestaram também perante a assembleia o seu desejo de viver este tempo, aprendendo os valores da vida franciscana e amadurecendo a sua resposta ao chamado de Deus. 

Depois da acolhida os frades saudaram os aspirantes com uma calorosa salva de palmas.  Em sua homilia Frei Erlison recordou como palavra chave algo que um de seus formados, Frei Elder Almeida, sempre dizia: “Coragem”. A partir dessa expressão desenvolveu a reflexão ligando com pontos do Evangelho do dia que falava sobre a missão de Jesus e sua coragem de seguir, não obstante alguns percalços, entre eles o de ser acusado de “estar fora de si”. Para muitos a opção vocacional que vocês abraçam é um “estar fora de si”, enfatizou o animador vocacional custodial.  

Os sete aspirantes acolhidos à FAV são: André Pereira Nunes, Denilson Waro Munduruku. Francisco Ivan De Almeida Junior, Gersinildo Karo Munduruku, Leandro Silva Rodrigues, Ludenilson Poxo Munduruku, Ronildo Karo Munduruku. No final da missa os jovens também se colocaram próximo da imagem da Virgem Imaculada, rezaram uma Ave Maria, receberam a bênção do presidente da celebração e todos entoaram o canto “Imaculada”. 

Este ano a Custódia terá duas Fraternidades de Acolhida Vocacional, uma em Monte Alegre e outra em Itaituba. O grupo continuará reunido em Santarém para esta primeira semana de convivência até o dia 26. No dia 27 eles seguirão para suas respectivas fraternidades.   

Texto e Fotos: Frei Fábio Vasconcelos e Frei Erlison Campos

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O quinto centenário do nascimento de São Benedito, o Mouro

Mensagem dos Frades Menores da Sicília  

por ocasião do quinto centenário do nascimento de São Benedito, o Mouro 

 

No quinto centenário do nascimento de São Benedito de San Fratello, os Frades Menores da Sicília, que têm a honra de tê-lo como membro de sua fraternidade e guardar seus restos mortais no convento de Santa Maria de Jesus, em Palermo, a todos os irmãos e irmãs de boa vontade (1524 – 2024). 

 

Este ano assinala-se o quinto centenário do nascimento de São Benedito, o Mouro, o primeiro santo negro canonizado através de um processo canônico regular. 

 

Infelizmente, às vésperas do início das celebrações do centenário foram marcadas pelo assustador incêndio, que em 25 de julho de 2023 destruiu totalmente o interior da igreja do século XV.  O incêndio devastou o interior da Igreja,  onde São Benedito rezava e onde se conservava o seu corpo incorrupto, destino de peregrinações.  Ali também havia a imagem de Santa Maria de Jesus, diante da qual ele gostava de fazer paradas para contemplação e que, segundo a lenda, lhe confiava algumas vezes o Menino Jesus,  que ele devotamente segurava em seus braços, bem como a urna em que foram guardados os restos mortais do Beato Mateus de Agrigento, fundador da igreja e do convento. Dessa forma, mesmo na morte, São Benedito compartilhou o destino daqueles que perderam suas casas e morreram nas chamas. Seus restos mortais queimados foram recolhidos com carinho pelos frades e voluntários da paróquia que generosamente fizeram o possível para que fossem recolhidos e arrumados o mais rápido possível.  

 

Paradoxalmente, porém, o eco e a emoção suscitados pelo triste acontecimento a nível local, nacional e internacional tornaram São Benedito mais conhecido, mesmo em regiões e países onde nada se sabia da sua existência e deu origem a uma série de iniciativas que dão esperança para a rápida reconstrução da igreja e o arranjo do que foi possível recuperar do seu corpo queimado. 

 

Benedito, nascido em San Fratello, na província de Messina, muito provavelmente em 1524, numa época em que o tráfico de escravos existia nos países cristãos, filho de Cristóvão Manasseri e Diana Larcan, sequestrados e escravizados por mercadores europeus e vendidos como escravos, acabaram a serviço de um rico proprietário de terras de San Fratello chamado Vincenzo Manasseri. 

 

Criado como cristão, viveu uma infância serena e uma adolescência trabalhadora, alcançando uma situação econômica decente com seu trabalho. Com cerca de vinte anos, o encontro com um eremita franciscano, chamado Jerônimo Lanza, chefe de uma congregação de eremitas de inspiração franciscana que tomou seu nome, marcou um ponto de inflexão em sua existência. Benedito juntou-se a ele na solidão para levar uma vida de oração e austeridade no eremitério de Santa Domenica, perto de Caronia, em busca do rosto de Deus e de sua intimidade na escuta de sua voz. O grupo tornou-se tão popular que foi repetidamente forçado a mudar de local, movendo-se de Caronia para o vale Platani na área de Agrigento, para Mancusa entre Carini e Partinico e depois para Marineo na província de Palermo e, finalmente, para o Monte Pellegrino, lugar caro a Santa Rosália. Nesse meio tempo, Benedito tornara-se o líder do grupo de eremitas. 

 

Em 1562, enquanto o Concílio de Trento ainda estava em andamento, um decreto do Papa Pio IV, prosseguindo o programa de reforma da Igreja, obrigou os eremitas de inspiração franciscana a se juntarem a uma das famílias religiosas da Primeira Ordem de São Francisco. Benedito, depois de longa e fervorosa oração diante da imagem da Bem-Aventurada Virgem Maria, conhecida como “aquela que liberta dos infernos”, na catedral de Palermo, bateu às portas do convento de Santa Maria de Jesus, na mesma cidade, pedindo para ser recebido entre os Frades Menores. Além de uma breve estadia durante os anos de formação em Juliana, na província de Palermo, permaneceu no convento de Santa Maria de Jesus até sua morte, distinguindo-se pelo espírito de oração, pela austeridade de sua vida, pelo serviço de seus confrades nas várias tarefas que foi chamado a realizar de tempos em tempos, como cozinheiro, porteiro, mendigo, mestre de noviços,  guardião, e pela caridade para com os pobres e os doentes, homens e mulheres, de todas as classes sociais que se voltaram para ele sobretudo por sua fama de milagroso (taumaturgo). 

 

Seu modo de vida, a sabedoria de seus conselhos (“ele lia corações”), sua sagacidade e afabilidade, sua profunda compreensão das Sagradas Escrituras, sua caridade sem limites, sua ternura para com os pequenos e os sofredores e a fama dos milagres que lhe foram atribuídos atraiu a estima, a simpatia e a devoção de leigos e leigas, religiosos e clérigos. Benedito morreu em 4 de abril de 1589, terça-feira da semana pascal. Esta foi a origem da tradição, que se perpetua até hoje, da peregrinação do convento ao seu eremitério no Monte Grifone, perto da árvore que plantou, no domingo após a Páscoa. A cidade de Palermo reconheceu imediatamente em Benedito, negro e filho de escravos, um protetor (o “advogado celeste”) a quem poderia recorrer nos acontecimentos conturbados de sua história e a cuja intercessão poderia confiar-se em momentos de dificuldade, muito antes de sua canonização, em 24 de maio de 1807 pelo Papa Pio VII. De fato, um decreto do Senado de Palermo, em 24 de abril de 1652, proclamou Benedito Padroeiro e Intercessor da cidade. 

 

Seu culto, assim como em Palermo, em sua cidade natal San Fratello e mais tarde em Acquedolci, espalhou-se imediatamente após sua morte para a Espanha e, sobretudo, foi trazido por missionários franciscanos para os países da América Latina: Venezuela, Brasil, Peru, México, Cuba, Argentina, Colômbia, Chile, Uruguai, etc., onde se tornou muito popular entre os escravos africanos, que o tráfico de escravos deslocou aos milhões para aquelas regiões.  E nas últimas décadas espalhou-se por vários países africanos. Hoje, como na sua época, os povos da América e da África reconhecem no santo negro um irmão solidário com seus sofrimentos e suas aspirações de liberdade, e um símbolo de sua esperança de libertação. 

 

Benedito, conhecido como mouro pela cor de sua pele, filho de escravos africanos sequestrados, deportados e vendidos, desprezado por sua origem e condição social (era chamado: “scavuzzo”, “scavo nigro”, “schiavotto”), que decide sobre sua vida e escolhe se tornar eremita para se dedicar à busca de Deus e à oração; Benedito que, tendo sido dissolvido o grupo de eremitas, entrou para os Frades Menores, e aqui, de caráter amável, amado e estimado pelos confrades, tornou-se seu guia e introduziu a Reforma na família religiosa.  Foi muito benquisto e procurado por sua sabedoria, disponibilidade, caridade delicada, espírito de oração e capacidade de escuta e cuidado pelas pessoas, pelos pobres,  ricos e nobres, clérigos e leigos. 

 

Por todas essas razões, imediatamente após sua morte, Benedito foi aclamado santo e padroeiro pela cidade que o acolheu, antes de ser oficialmente canonizado pela Igreja e, na América Latina, venerado como símbolo de redenção dos negros escravos deportados. 

 

Neste mundo e neste tempo em que centenas de milhares de pessoas fogem de seus países de origem forçadas pela fome, por condições extremas de vida, falta de liberdade, água, trabalho e exploração, em busca de dignidade, respeito e uma vida digna da condição humana;  ou arrancadas do afeto de seus entes queridos para serem escravizadas,  muitas vezes encontram violência, exploração e morte no deserto ou no mar, Benedito é uma figura de extraordinária relevância, símbolo de esperança, redenção, acolhimento e integração. 

 

A celebração do quinto centenário do seu nascimento é uma ocasião providencial para redescobrir a figura do Santo Mouro e a relevância da sua mensagem de solidariedade, fraternidade e diálogo para o mundo multirreligioso, multicultural e multiétnico em que vivemos, dilacerado pelo racismo e pela discriminação, pelas guerras e pela violência, afligido por velhas e novas formas de escravidão, mas sedento de liberdade,  de paz, fraternidade e, sobretudo, espiritualidade. 

 

Palermo, 3 de janeiro de 2024 

Festa das SS. Nome de Jesus 

Os Frades Menores da Sicília  

 

O quinto centenário do nascimento de São Benedito, o Mouro

No dia 03 de janeiro de 2024, dia da comemoração do Santíssimo Nome de Jesus, a Província da Ordem dos Frades Menores na Sicília, Itália, abriu solenemente as comemorações do quinto centenário do nascimento de São Benedito, conhecido como “Mouro”, por ser negro, de origem africana e filho de escravos africanos. São Benedito, como mostra a carta dos frades menores da Sicília, se tornou muito popular em várias áreas do mundo, sobretudo naquelas em que o tráfico de escravos foi mais intenso e a devoção ao santo negro foi particularmente cara às populações oprimidas e escravizadas, que se identificavam com o santo franciscano e viam nele a esperança de sua libertação da escravidão.  

A devoção a São Benedito é muito grande também na Amazônia, onde são celebradas grandes festas a este santo ao longo de todo ano. Desde a periferia de Belém, subindo pelos paranás e rios da Amazônia, será possível participar de alguma festa de São Benedito. Destacam-se as festas do Bairro do Jurunas, em Belém, em Gurupá, Almeirim… etc.   

Quando a nova entidade franciscana foi fundada na Amazônia, erigindo-se uma Vice-Província, o então primeiro ministro provincial, Frei Miguel Kellett, fez uma sondagem entre os frades, uma espécie de eleição para escolher um nome para a nossa entidade franciscana. Quem ganhou a eleição foi São Benedito, especialmente por causa da sua popularidade nas comunidades da região amazônica.  

Portanto, para a Custódia São Benedito da Amazônia, a celebração do Quinto Centenário de São Benedito tem um brilho especial. Que o santo frade siciliano nos inspire com as suas muitas virtudes!    

 

Tradução e comentário: Frei Edilson Rocha, OFM  

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1º Domingo do Advento

Ilustração: Fábio Vasconcelos, OFM

Uma profissão que quase não existe mais é a de oleiro. Mesmo assim, ainda se encontra pessoas que fazem vasos de barro usando métodos antigos. Alguns anos atrás encontrei um oleiro numa feira de artesãos. Fiquei observando enquanto o oleiro fazia um vaso de barro. Ele pegou uma bola de barro e colocou num torno, uma roda que girava com a força dos seus pés. Em pouco minutos, o oleiro moldava aquele barro e com os dedos de artista, transformava o barro num vaso. Ele metia a mão no meio do barro para fazer um buraco e aos poucos o vaso ia tomando forma. Depois, com um instrumento chato, fazia desenhos no vaso. Cada vaso era diferente conforme a criatividade do oleiro e a maneira que ele trabalhava o barro.
Ao escutar as palavras do profeta Isaías, me lembrei do oleiro que fazia vasos de barro: “Senhor, tu és nosso Pai, nós somos barro; tu nosso oleiro, e nós todos, obra de tuas mãos” (Is 64, 7). É Deus, com seus dedos de artista, que nos molda. Mas há uma diferença entre o barro nas mãos do oleiro e nós, nas mãos de Deus. Enquanto o barro não tem vontade própria e é moldado sem resistência, nós precisamos nos deixar moldar.
O tempo de Advento, que iniciamos hoje, é esta grande oportunidade para deixar que sejamos moldados por Deus. A primeira coisa é lembrar que o Advento é tempo de espera. Mas nossa espera não é de ficar de braços cruzados aguardando que algo aconteça. Pelo contrário, nossa espera precisa ser de ação e não de acomodação. Para isto é preciso a vigilância, como disse Jesus no evangelho: “O que vos digo, digo a todos: vigiai” (Mc 13, 37).
Para sermos moldados por Deus, precisamos ficar atentos, porque não sabemos quando chegará o momento. Vigiar é lembrar que toda a vida cristã é um caminho no qual precisamos nos converter para as ações de bondade e solidariedade sendo sinais do amor de Deus no mundo.
Vigiar também é reconhecer que como cristãos enfrentamos muitas dificuldades e somos pressionados por propostas atraentes e enganosas. Nós, como servos vigilantes, precisamos vencer o egoísmo pela prática do amor e do serviço. É na vivência da comunhão fraterna em comunidade que somos moldados por Deus.
Vigiar é também lembrar que precisamos ser responsáveis pela casa de Deus que é o nosso mundo. Estamos diante de uma situação em que se usa muitos agrotóxicos, veneno na agricultura e nestes últimos tempos o fogo com muita fumaça no ar. Tudo isso causa muitos danos à natureza e à vida da humanidade. Cuidar da vida, respeitar a natureza, defender os direitos dos povos originários e das suas culturas é ser moldado por Deus.
São Paulo nos lembra que é Deus que nos dá perseverança em nosso procedimento irrepreensível até o dia de nosso Senhor. Ter um procedimento de diálogo e entendimento na família, agir com honestidade e ética no trabalho e praticar a partilha com os necessitados é ser o empregado responsável e cumprir a tarefa confiado. É este servo que espera o Senhor dando testemunho dos dons recebidos. Pela perseverança no testemunho e na vivência da fé que o cristão é vigilante e é moldado por Deus.
Então Advento é o tempo para sermos moldados por Deus e, assim, nos tornemos obras de Deus. Para isto lembramos que o tempo de Advento tem dois sentidos. Nas primeiras duas semanas, vigilantes e alertas, somos lembrados a esperar a segunda vinda de Jesus no final dos tempos; e nas últimas duas semanas, lembrando a espera dos profetas e Maria, preparamos mais especialmente o nascimento de Jesus em Belém.
Durante todo este tempo de Advento ficamos então na espera, não parados ou despreparados, mas pelo nosso compromisso de fé, na vigilância e na ação. Como o barro é moldado nas mãos do oleiro sem resistência, nós também queremos ser moldados por Deus como servos atentos e vigilantes. Através da criatividade de Deus, somos vasos que carregam um tesouro de valor inestimável, continuamos nossas tarefas e trabalhos como de sempre, mas agora de uma maneira diferente, com o nosso procedimento irrepreensível, confirmados pela graça de Deus e chamados à comunhão com Jesus Cristo, nosso Senhor.

 

Por: Frei Gregório Joeright, OFM

Referências:

BORTOLINI, Padre José. Roteiros Homiléticos: Anos A, B, C, Festas e Solenidades. Brasil: Paulus Editora, 2014.

COSTA, Padre Antônio Geraldo Dalla. Buscando Novas Águas. Disponível em: https://www.buscandonovasaguas.com/index.php?menu=home. 

A Fé Compartilhada – Pe. Luís Pinto Azevedo

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Carta do Papa Francisco à Família Franciscana no oitavo centenário da Regra Bulada

Foto: Vatican News

CARTA DO PAPA FRANCISCO AOS MEMBROS DA FAMÍLIA FRANCISCANA

POR OCASIÃO DO OITAVO CENTENÁRIO DA APROVAÇÃO DA REGRA BULADA (1223-2023)

 

AOS MEMBROS DA FAMÍLIA FRANCISCANA

Queridos Irmãos e Irmãs,

É com alegria no coração que desejo fazer-lhes chegar a minha saudação e felicitação nessa ocasião tão importante para a inteira Família Franciscana, da qual desde o princípio do meu Ministério Petrino sinto a viva presença orante e proximidade filial. O VIII centenário da confirmação da Regra dos Frades Menores, por parte do Papa Honório III na Basílica do Latrão, ocorrida no dia 29 de novembro de 1223, é uma ocasião propícia não somente para recordar um evento histórico, mas sobretudo para reavivar em todos vocês o mesmo espírito que inspirou Francisco de Assis a despojar-se de tudo, e dar origem a uma forma de vida única e fascinante, que é enraizada no Evangelho e vivida sem glosas. Que este jubileu possa ser para cada um o tempo de um renascimento interior, de um renovado envio missionário da Igreja que chama a sair ao encontro do mundo, lá onde tantos irmãos e irmãs precisam ser consolados, amados e cuidados.

Portanto, movido por tais sentimentos, desejo entregar-lhes algumas exortações que nascem próprio das palavras do Pobrezinho de Assis, o qual propõe aos seus frades de: “[…] observar a pobreza e a humildade e o santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo […]” (Regra Bulada XII,5Observar o santo Evangelho A Regra Bulada de fato começa e termina fazendo referência explícita ao Evangelho. As expressões de abertura são uma síntese iluminadora da inteira Regra: “A Regra e vida dos Frades Menores é essa: observar o santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem propriedade e em castidade” (Regra Bulada I,2).

Em São Francisco o Evangelho sempre ocupou um lugar central na sua existência; a Igreja, ao aprovar o seu propósito, confia a ele e também a todos os franciscanos a Regra, que não exprime somente a intuição espiritual de um Fundador, mas que transmite verdadeiramente uma forma de vida. É uma mensagem de alegria que sempre fiz questão de indicar, pois “enche o coração e a vida daqueles que se encontram com Jesus” (Evangelii gaudium n.1).

É urgente, portanto, retornar aos fundamentos de um empenho cristão e batismal, capaz de deixar-se inspirar, em cada escolha, pela Palavra do Senhor: Cristo é o ponto focal da vossa espiritualidade! Sejam homens e mulheres que verdadeiramente aprendam na sua escola “regra e vida”!

O documento original da Regra (Credit foto: Sala Stampa Sacro Convento)

 

Obediência à Igreja

Caríssimos, para viver os ensinamentos do Mestre é necessário permanecer na Igreja. Francisco manifesta isso de maneira decidida, pois, na frase introdutória que descreve a vontade de seguir os conselhos evangélicos acrescenta logo em seguida palavras sugestivas e singulares, seja no conteúdo como na linguagem: “Frei Francisco promete obediência e reverência ao senhor Papa Honório e a seus sucessores canonicamente eleitos e à Igreja Romana. E os demais irmãos estejam obrigados a obedecer a Frei Francisco e a seus sucessores” (Regra Bulada I, 3-4).

Nesse vínculo de “obediência e reverência” ao Papa e à Igreja de Roma, ele reconheceu um elemento essencial para a fidelidade ao chamado e para receber Cristo na Eucaristia; eis porque declara sem hesitar a pertença imprescindível à Igreja. Portanto, vivam o espírito da Regra na escuta e no diálogo, como o caminho sinodal sugere de cumprir. Sustentem firmemente a Igreja, restaurem-na com o exemplo e o testemunho, mesmo quando isso parecer custar muito!

Ir pelo mundo

Por fim, desejo retomar a intuição, sempre presente na Regra Bulada, de andar pelo mundo. Intervindo em primeira pessoa, assim o Pai Seráfico afirma: “Aconselho, todavia, admoesto e exorto a meus irmãos no Senhor Jesus Cristo que, quando vão pelo mundo, não discutam nem alterquem com palavras nem julguem os outros; mas sejam mansos, pacíficos e modestos, brandos e humildes, falando de todos honestamente, como convém. […] Em qualquer casa em que entrarem, digam primeiramente: Paz a esta casa […]” (Regra Bulada III, 11-14).

Andar pelo mundo para vocês, irmãs e irmãos franciscanos significa realizar concretamente a vocação itinerante em um estilo de fraternidade e de vida pacífica, sem discussões ou disputas, entre si ou com os outros, dando testemunho de “minoridade”, com mansidão e docilidade, anunciando a paz do Senhor e confiando-se à sua providência: este é um programa especial de evangelização, possível para todos.

Nessa perspectiva, é importante redescobrir a beleza da evangelização tipicamente franciscana, que nasce de uma fraternidade para promover a fraternidade; de fato, será o testemunho de vida que falará, o amor doado no serviço é a maior forma de anúncio. Reencontrem, portanto, a força em tal peculiar vocação, própria dos “menores” e dos “pobres”, que vocês são chamados a viver por desejo e pertença. Isso lhes é dado por Francisco na sua Regra e estou convencido de que está em sintonia com o convite que direciono à Comunidade cristã de ser “Igreja em saída”: “Fiel ao modelo do Mestre, é vital que hoje a Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demora, sem repugnâncias e sem medo. A alegria do Evangelho é para todo o povo, não se pode excluir ninguém” (Evangelii gaudium n. 23)

E por isso lhes digo: não temam andar pelo mundo em “fraternidade” e em “minoridade” compartilhando a bem-aventurança da pobreza, tornando-se signo evangélico eloquente e mostrando ao nosso tempo, marcado infelizmente por guerras e conflitos, por egoísmos de todos os tipos e lógicas de exploração do meio- ambiente e dos pobres, que o Evangelho é verdadeiramente a boa notícia para o homem, que o ajuda a reencontrar o melhor caminho para a construção de uma nova humanidade, com a coragem de direcionar-se a Jesus, que “de rico que era, tornou-se pobre por causa de vós, para que vos torneis ricos, por sua pobreza” (cf. 2Cor 8,9).

Caríssimos Irmãos e Irmãs, confio a vocês a missão de descobrir os caminhos certos a serem percorridos para poder assim corresponder com audácia e fidelidade ao carisma recebido. Ao recordar os acontecimentos fundamentais e importantes para a numerosa Família Franciscana, invoco a intercessão da Virgem Maria e dos Santos Francisco e Clara de Assis e lhes concedo a minha Benção, pedindo, por favor, que continuem rezando por mim.

Dado em Roma, em São João de Latrão, 9 de novembro de 2023

Aniversário da Dedicação da Basílica de Latrão, Catedral de Roma.

FRANCISCO