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A Igreja defende os indígenas, a “Doutrina da Descoberta” nunca foi católica

Papa Francisco durante sua viagem apostólica ao Canadá, em julho de 2022 (Vatican Media)

 

Graças à ajuda dos indígenas, “a Igreja adquiriu maior consciência de seus sofrimentos, passados e presentes, devido à expropriação de suas terras… e às políticas de assimilação forçada, promovidas pelas autoridades governamentais da época, a fim de eliminar suas culturas”. É o que se lê na “Nota conjunta sobre a Doutrina da Descoberta” dos Dicastérios para a Cultura e a Educação e para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral publicada nesta quinta-feira, 30 de março. O documento afirma que a “Doutrina da Descoberta”, teoria que serviu para justificar a expropriação dos indígenas pelos soberanos colonizadores, “não faz parte do ensinamento da Igreja Católica” e que as bulas papais com as quais foram feitas concessões aos soberanos colonizadores nunca se tornaram magistério.

É um texto importante que, oito meses depois da viagem do Papa Francisco ao Canadá, reitera claramente a rejeição da Igreja Católica à mentalidade colonizadora. “Ao longo da história”, recorda-se, “os Papas condenaram os atos de violência, opressão, injustiça social e escravidão, inclusive os cometidos contra as populações indígenas”. E “também foram numerosos os exemplos” de bispos, sacerdotes, religiosas e leigos que “deram a vida em defesa da dignidade daqueles povos”. A Nota também recorda que “muitos cristãos cometeram atos perversos contra os povos indígenas pelos quais os últimos Papas pediram perdão em numerosas ocasiões”.

A propósito da “Doutrina da Descoberta”, afirma-se que “o conceito jurídico de «descoberta» foi debatido pelas potências coloniais a partir do século XVI e encontrou particular expressão na jurisprudência dos tribunais de vários países do século XIX, segundo a qual a descoberta de terras pelos colonos conferia um direito exclusivo de extinguir, por meio de compra ou conquista, o título ou a posse destas terras pelas populações indígenas”. Segundo alguns estudiosos, esta “doutrina” encontrou sua base em vários documentos papais, em particular nas Bulas de Nicolau V “Dum Diversas” (1452) e “Romanus Pontifex” (1455), e na de Alexandre VI “Inter Caetera” (1493). Trata-se de atos com os quais estes dois Papas autorizaram os soberanos portugueses e espanhóis a apoderar-se das propriedades nas terras colonizadas, subjugando as populações originárias.

A pesquisa histórica demonstra claramente”, afirma a Nota, “que os documentos papais em questão, escritos em um período histórico específico e ligados a questões políticas, nunca foram considerados expressões da fé católica”. Ao mesmo tempo, a Igreja “reconhece que essas bulas papais não refletiam adequadamente a igual dignidade e direitos dos povos indígenas”. E acrescenta que “o conteúdo destes documentos foi manipulado para fins políticos pelas potências coloniais em competição entre si, para justificar atos imorais contra as populações indígenas, por vezes realizados sem a oposição das autoridades eclesiásticas”. Portanto, é justo, afirmam os dois Dicastérios da Santa Sé, “reconhecer esses erros, reconhecer os terríveis efeitos das políticas de assimilação e a dor sentida pelos povos indígenas e pedir perdão”.

Em seguida, citam-se as palavras do Papa Francisco: “Nunca mais a comunidade cristã poderá deixar-se contagiar pela ideia de que uma cultura é superior às outras, ou de que é legítimo recorrer a formas de coagir as outras”. E recorda-se, “sem meios termos”, que o magistério da Igreja apoia o respeito devido a todo ser humano e que a Igreja “repudia, portanto, aqueles conceitos que não reconhecem os direitos humanos intrínsecos dos povos indígenas”, inclusive a conhecida “Doutrina da Descoberta”.

Por fim, a Nota menciona as “numerosas e repetidas” declarações da Igreja e dos Papas em favor dos direitos dos povos indígenas, começando pela contida na Bula “Sublimis Deus” de Paulo III (1537), que declarou solenemente que os indígenas não devem “de forma alguma ser privados de sua liberdade ou da posse dos seus bens, mesmo que não sejam de fé cristã; e que podem e devem, livre e legitimamente, gozar da sua liberdade e da posse de seus bens; nem devem ser de forma alguma escravizados; caso contrário, o ato será nulo e sem qualquer efeito.” “Mais recentemente, a solidariedade da Igreja com os povos indígenas suscitou o forte apoio da Santa Sé aos princípios contidos na Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas”. A sua implementação “melhoraria as condições de vida e ajudaria a proteger” os direitos desses povos.

 

Fonte: Vatican News

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A luz da Palavra na Mundurukânia: os primeiros dias do ano no Alto Tapajós

Na primeira parte do relato apresentamos as vivências de Frei Edilson, Frei Andrei e Frei Fábio nos primeiros oito dias de viagem, coincidindo com a oitava do Natal, da sua passagem pela Missão Cururu.

As narrativas que seguem se concentram do dia 31 de dezembro de 2021 até 06 de janeiro de 2022. O que embala as descrições é o forte sinal da luz, uma ilustração profunda do tempo natalino, e o simbolismo dos dons manifestados na epifania do Senhor, tudo isso mesclado com a realidade da nação munduruku do Alto Tapajós. 

 

Muita Luz no Ano Novo!

O dia que encerrou 2021 foi marcado pela celebração do Ano Novo. Em clima de vigília pela chegada de um novo tempo, as pessoas reunidas para a missa renderam graças pela vida no decurso do calendário civil que concluímos. Por algum motivo, após a liturgia da palavra, o gerador que fornece luz para a igreja deu uma parada, mas, com luz de velas e lanternas, seguiram com a eucaristia. É uma boa analogia ver que mesmo em uma capela escura sempre se pode dar um jeito e achar luzes para prosseguir. 

 

Santa Maria, Mãe de Deus

No primeiro dia de 2022, celebramos a liturgia de Santa Maria Mãe de Deus, que concluiu a oitava do Natal, com uma boa participação dos fiéis. Frei Edilson alertou que ao celebrar, temos sempre como centro da nossa fé a pessoa de Jesus, mas em Maria encontramos um exemplo de como deixar Cristo ser o mais importante em nossas vidas. Ele recordou que o ano novo representa para todos uma nova esperança, e que para os povos indígenas é uma oportunidade de buscar o bem viver, valorizando as sabedorias dos antepassados e o cuidado com a Terra. As temáticas das leituras mesclavam tanto a figura de Maria com o começo do novo tempo que chega com mais este ano civil. Na conclusão das preces, foi rezada a oração da paz, atribuída a São Francisco de Assis. No final da celebração, Frei Edilson deu a bênção para o início do ano de 2022.    

 

A luz das nações manifestou-se no Rio Cururu

No domingo da Epifania, este ano celebrado no Brasil no dia 02 de janeiro, tivemos a missa dominical na aldeia Missão São Francisco, a última celebração desta visita. Depois do Evangelho, Frei Edilson anunciou as datas das solenidades móveis, destacando a data da Páscoa (17 de abril), e afirmando a presença dos frades para essa celebração litúrgica. O Frade, ao começar sua reflexão, explicou o significado de Epifania como manifestação, derivada da sua origem na língua grega. Em seguida, pontuou que essa presença do Senhor que se revela é sentida em um só clima de Natal e de manifestação de Jesus. A luz é o grande símbolo deste tempo, pontuou ele. Vemos o mundo que se ilumina, mesmo muitas vezes sem saber e nem entender o sentido de tanta luminosidade. No entanto, no coração dos fiéis se acende a mais forte luz da fé. O nascimento de Jesus Cristo e sua manifestação acontece aos mais simples, como os pastores. Também aos magos, gente que vem de fora para adorar e reconhecer o seu esplendor. No meio do caminho de encontro com a luz, pode-se também topar com a perversidade de gente distante da claridade, nas vias da corrupção e da ganância, figurado em Herodes. Que a presença de Cristo acenda a luz que clareia os nossos passos na unidade neste ano de 2022, com clareza e lucidez para seguirmos como povo cheio de vida.

 

Primeira Missa na aldeia Paxiúba

Na tarde do domingo da epifania (02 de janeiro), os frades, irmãs e um grupo de leigos foram visitar e celebrar a eucaristia na aldeia Paixúba. O nome da aldeia, nome de uma palmeira, se deve na verdade a um igarapé de mesma denominação que passa pela comunidade. Celebraram a liturgia no barracão comunitário, e essa foi a primeira vez que a comunidade celebrou a eucaristia. A aldeia tem em torno de dois anos e ainda não tem uma capela e nem um santo padroeiro. Na ocasião, todos ficamos ao redor da grande mesa. Em seguida, no mesmo espaço, partilharam uma refeição com vinho de bacaba, beiju (beyo’a), café, chá e suco de muruci. Neste momento de partilha fraterna, as pessoas trouxeram também os seus animais de estimação para o barracão e uma diversidade de espécies de macacos, quatis e outros animais foi vista.

 

Testemunhas da luz

Os ministérios leigos na área pastoral da Missão Cururu têm se mostrado bastante fecundos na construção de uma ministerialidade eclesial com rosto amazônico. A formação e investidura de ministros da palavra tem evidenciado o protagonismo dos leigos para uma igreja missionária em saída. Uma consciência de responsabilidade pastoral frente aos desafios atuais da realidade munduruku tem crescido cada vez mais entre as lideranças da igreja local. Desde o ano de 2017, ano onde o ministério foi conferido para o primeiro grupo, os ministros da Palavra estão presidindo as liturgias com as aldeias e tem assumido seu bem papel eclesial. No ano de 2019, uma outra turma de ministros recebeu o mandato. No desempenho dessa função, que não é apenas da presidência litúrgica das celebrações, os ministros se enraízam na Palavra de Deus e testemunham a habitação dela no meio da vida dos Munduruku. A comunicação da Palavra é outra marca desse ministério, que pode muito bem ser feito na própria língua indígena. Dentro da Palavra que é luz emergem testemunhas como a de João Batista, pronta a anunciar o Cristo que ilumina as nações.

Inspirados por esse tipo bíblico, o grupo de ministros das aldeias da mundurukânia resolveu por iniciativa própria promover as “caravanas de São João Batista” como momentos de evangelização das comunidades. Esta ação se coloca como sinal da luz e efeito da Palavra de Deus. Esse trabalho também é fruto do trabalho missionário das pessoas que ajudaram na formação desses ministros e das comunidades que acolhem a Palavra de Deus.

 

 

Os dons que recebemos

No dia 04 de janeiro, os frades retornaram para Jacareacanga e seguiram rumo à Santarém, aonde chegaram no dia 06 de janeiro, dia da festa popular dos “Santos Reis”, trazendo na mala muitos presentes, que não são provenientes das “riquezas materiais”, mas simbólicas, que vem do encontro com a rica cultura no seio da Amazônia. Os frades trouxeram um paneiro cheio de boas conversas, de aprendizados e de situações inquietantes para pensar e refletir. Percebemos que estes são dons que devemos partilhar e que nos fazem crescer em comunhão com estes mais de cem anos de convivência. Outro dom desta viagem foi perceber como o Espírito faz germinar e florir as sementes dos ministérios, em especial na atuação dos(as) ministros(as) da Palavra e na sua atitude de testemunhar o Reino. Recolhemos no coração a dádiva de vocações religiosas autóctones, membros do povo Munduruku vocacionados a ser pains (paĩ) e irmãs. Isto tudo são candeeiros acesos do sonho socioecológico-eclesial da Querida Amazônia.   

Texto: Frei Fábio Vasconcelos

Fotos: Frei Edilson Rocha e Frei Andrei Anjos

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O abraço de Francisco a indígenas brasileiros no Vaticano

Depois de inúmeros testes Covid-19 e quarentena de dez dias, duas lideranças indígenas do Pará participaram no Vaticano de um encontro do Movimento Laudato Si com o Papa Francisco.

Papa Francisco encontra a Delegação do Movimento Laudato Si – Foto: Vatican News

Na manhã desta quinta-feira, 26, o Papa Francisco recebeu na antessala da Sala Paulo VI uma delegação do Movimento Laudato Si  (até 29 de julho chamado Movimento Católico Global pelo Clima), que tem o foco de suas atividades na ecologia integral, mas também o compromisso internacional e constante inspiração de ação na Encíclica do Papa o sobre o cuidado com a Casa Comum.

Duas lideranças indígenas do Pará presentes no encontro – Cacique Dadá Borari e Poraborari, da terra indígena Maró, município de Santarém, oeste do Pará – contaram que o Papa Francisco dançou o Surara – somos guerreiros, eu sou guerreiro – e na conversa deu a eles “uma esperança muito boa” As lideranças acompanham a movimentação em torno da votação do marco temporal pelo STF nesta quinta-feira, mas também falaram sobre os inúmeros testes realizados antes de chegar na Itália – incluindo a quarentena de 10 dias –  e ao final exortaram todos a usar máscara, álcoo gel, e ter cuidado consigo mesmo e com os outros.

Como foi o encontro com o Papa Francisco na manhã de hoje?

O encontro foi um encontro muito bom, por conta que o Papa nos recebeu com todo carinho, com toda essa pessoa que ele é, foi sensível, sensibilizou a luta indígena nossa no Brasil, principalmente lá do Baixo Tapajós, e ele nos garantiu que é possível a gente construir uma agenda, aonde a gente possa discutir exatamente esse grande problema que hoje ocorre no Brasil, que é possível a gente fazer aliança, que essa aliança seja feita entre nós do Brasil, a população indígena, e a liderança que ele é hoje aqui no Vaticano. Então ele deu uma esperança muito boa para gente, que a gente vai construir uma torre de liderança, que essa torre de liderança possa discutir exatamente esses grandes empreendimentos que ocorrem no Brasil.

 

Foto: Vatican News

 

Teve uma dança e um grito especial durante o encontro, é isso?

Foi muito legal, por conta que nós dançamos o Surara e o Papa Francisco entrou na roda com a gente, segurou na minha mão, e a gente conseguiu dançar o Surara, que nada mais é do que esse tom aqui…[canto indígena]. O Surara significa ‘somos guerreiros, eu sou guerreiro’ (…) significa que o Papa Francisco é um guerreiro forte aqui no Vaticano. Esse é o significado. E tem o grito ‘Surara!’, somos fortes.

Hoje vai ser votado no STF o marco temporal. Como vocês estão acompanhando a mobilização em torno da votação, que teve inclusive o apoio nesses dias da CNBB, da REPAM, da CRB….

Estamos acompanhando, estamos bastante preocupados, porque está sendo discutido o futuro dos territórios indígenas, o futuro dos povos indígenas, porque se o STF referenda o marco temporal, significa dizer na prática de que todos os territórios indígenas, eles acabam sendo atribuído, criada regra geral para ter direito à demarcação de terra, os povos que estavam sob posse em 5 de outubro de 1988, quando foi promulgada a Constituição, o Brasil é signatário. E com isso é muito prejudicial por conta que a nossa história não começa em 88, nós estamos ocupando o Estado brasileiro muito antes da constituição do Estado brasileiro, nós já estávamos ali ocupando aqueles territórios. Então o STF precisa reconhecer a presença indígena no Brasil, precisa reconhecer os povos indígenas como pertencentes daquele território, o direito dos povos indígenas é um direito signatário, originário, e que o STF precisa referendar. E mais, a própria tese do marco temporal ela é inconstitucional. Vários juristas do Brasil já fizeram seus artigos de apoio, apontando a inconstitucionalidade da tese do marco temporal, há dois dias atrás, a ONU lançou um relatório também afirmando ndo e ponderando que o STF precisa julgar pela inconstitucionalidade da tese do marco temporal, porque a ONU também entende de que o marco temporal é uma tese inconstitucional para os povos indígenas no Brasil.

Como vocês veem o apoio da Igreja Católica à causa indígena?

A Igreja Católica tem sua importância no mundo, tem suas influências no mundo, e no momento em que o cacique recebe um convite para se encontrar com Papa Francisco, onde o Papa Francisco assume o compromisso em criar uma aliança pela defesa e a manutenção dos direitos originários dos povos indígenas, dos povos tradicionais, isso é muito importante porque a Igreja nada mais, nada menos, do que está reconhecendo o seu papel social, não só o papel religioso mas seu papel social para com os povos, que há muito tempo foram dizimados e invisibilizados.

 

Foto: Vatican News

 

Nós estamos vivendo este período de pandemia. Como foi para chegar à Itália para este encontro no Vaticano e como está a situação da Covid em sua aldeia…

Desde que a gente saiu da aldeia, aí chegamos na Cidade de Santarém, a gente teve que fazer exame de Covid, fizemos exames em São Paulo, aí depois fizemos quando chegou aqui na Itália, e todos os exames foram negativos, e quando eu cheguei aqui na Itália a gente teve que ir para a quarentena de 10 dias. Após a quarentena a gente voltou a fazer exame de novo, testou negativo e para entrar aqui no Vaticano também tivemos que fazer o exame, graças a Deus deu tudo certo, deu tudo negativo.

Nesse momento de pandemia na aldeia, a gente está seguindo as nossas próprias regras culturais, e a gente teve um grande problema que por conta… no início nós tivemos 40 pessoas na aldeia que foram vítimas da Covid, mas daí temos uma grande que é que a minha mãe, Edite Alves de Souza o nome dela, e ela com outro pajé, andaram fazendo os remédios caseiro e graças a Deus nenhum indígena precisou ir para o hospital de Santarém, para que recebesse intubação, graças a Deus ninguém veio [foi ]e a gente só tratou, a mamãe, só tratou lá com os remédios caseiros que tem no próprio território. Então a sabedoria ancestral, voltada à medicina tradicional, ela foi positiva e graças a Deus todo mundo ficou bom, não deixou sequelas em ninguém e hoje a gente tá feliz, porque temos nossos saberes culturais que não deixa de somar com os saberes científicos. Mas a gente como a gente exige respeito da sociedade, nós também respeitamos a sociedade. Aí é por isso que eu concordei em fazer essa quarentena de 10 dias e a gente cumpriu a quarentena tudo na paz, tudo deu certo, espero sucesso a todo mundo, mesmo lá do meu país e aqui do país Vaticano e peço a todos, por favor: “Você que tá ouvindo neste momento, use máscara, use álcool gel e tenha cuidado que o que está em jogo não é a vida dos outros, mas é a nossa própria vida, a minha,  a sua, a de todo mundo, vamos se cuidar.”

Fonte: Vatican News

Abr_02_2021

Nota de apoio e solidariedade às lutas dos povos indígenas do Brasil contra o Marco Temporal

Indígena munduruku do Alto Tapajós – Foto: Andrei Anjos, 2019

No dia de ontem, 24 de agosto, pastorais e outros setores da sociedade civil, entre eles a Custódia São Benedito da Amazônia, presentes na cidade de Santarém (PA), lançaram uma nota de apoio às lutas e direitos indígenas frente ao julgamento do chamado “marco temporal”. Muitas outras instituições sociais e eclesiais têm afirmado sua posição de somar-se aos povo tradicionais contra a aprovação judicial da tese que pode alterar as leis sobre demarcação de territórios indígenas no país. Na Nota as entidades expressam sua preocupação com retrocessos e posturas anti-indígenas no pano de fundo da tese do Marco Temporal. Os autores da nota, manifestam sua solidariedade para com os nativos de diversas partes que se encontram em Brasília no “acampamento luta pela vida”, caracterizado no escrito como um puxirum (reunião) de resistência.

Confira o texto na íntegra:

 

Missão São Francisco do Rio Cururu. Foto: Andrei Anjos, 2019

 

NOTA DE APOIO E SOLIDARIDADE ÀS LUTAS DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL CONTRA O MARCO TEMPORAL

Os movimentos, organizações e pastorais sociais de Santarém – PARÁ, nos solidarizamos com as lutas dos Povos Indígenas do Brasil contra o marco temporal e em defesa do direito de ser e viver em seus territórios,

Considerando que:

1. O julgamento do marco temporal das terras indígenas foi mais uma vez agendado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e entrará em pauta no próximo dia 25 de agosto. Apesar de se tratar de um caso específico que discute uma reintegração de posse movida contra os povos Xokleng, Kaingang e Guarani no estado de Santa Catarina, o resultado do julgamento terá consequências para o futuro da demarcação de todas as terras indígenas no Brasil. Pois, o pleno do STF, em fevereiro de 2019, deu status de “repercussão geral” ao processo, permitindo que essa decisão final torne-se uma referência para ser seguida por todos os casos semelhantes em julgamento no STF e nos demais tribunais do país.

2. Junto ao mérito do referido Recurso Extraordinário com repercussão geral (RE-RG) 1.017.365, a Corte Suprema discutirá se mantém ou não a medida cautelar deferida pelo ministro Edson Fachin, em maio deste ano, que suspendeu os efeitos do Parecer 001/2017 da Advocacia-Geral da União, AGU, instrumento usado para institucionalizar o marco temporal como norma no âmbito dos procedimentos administrativos de demarcação.

3. O Marco Temporal é uma tese anti-indígena defendida pelo setor ruralista para restringir os direitos dos povos originários. Ela estabelece a interpretação de que os povos indígenas só teriam direito à demarcação das terras que estivessem sob sua posse no dia 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal, ou as que estivessem em disputa judicial ou conflito direto com invasores. Essa tese desconsidera o fato de que, até 1988, os povos indígenas eram considerados por lei incapazes e tutelados pelo Estado brasileiro. Assim, não tinham autonomia para lutar judicialmente por seus direitos, embora as elaborações de resistência desses povos estivessem sempre presentes.

4. Se prevalecer a existência de um marco temporal, defendido pelo setor ruralista, se está legalizando o esbulho, invasões, remoções forçadas, massacres e genocídios ocorridos no passado contra os povos originários. E, neste caso, a decisão poderia incentivar uma enxurrada de outras decisões anulando demarcações, com o consequente surgimento de conflitos em regiões pacificadas, isto é, a invasão e esbulho possessório a terras já demarcadas. “Se o STF aceitar o chamado Marco Temporal em sua decisão sobre a demarcação de terras, no final deste mês, poderá legitimar a violência contra os povos indígenas e acirrar conflitos na floresta amazônica e em outras áreas” (Disponível em https://news.un.org/pt/story/2021/08/1760692), disse Francisco Cali Tzay, Relator Especial da ONU sobre os direitos dos povos indígenas.

5. Na avaliação de indigenistas, juristas, lideranças indígenas e do Ministério Público Federal (MPF), a referida tese do Marco Temporal contrapõe o artigo 231 da Constituição que reconhece “direitos originários [dos povos indígenas] sobre as terras que tradicionalmente ocupam” – ou seja, nas quais eles já estavam mesmo antes da existência do próprio Estado brasileiro. 6. Para os povos indígenas é decisivo a garantia e manutenção de seus direitos Constitucionais, para que não sejam violados seus territórios e suas condições de vida, ameaçadas pela ganância do capitalismo que mercantiliza a floresta.

Diante disto:

1. Manifestamos toda a nossa solidariedade e apoio aos povos indígenas de diversas partes do Brasil, que saíram de suas aldeias, enfrentando longas viagens, chegaram em Brasília para fazer um grande PUXIRUM DE RESISTÊNCIA E DEFESA DOS DIREITOS INDÍGENAS, um grande acampamento indígena formado por vários rostos, pinturas, cores, cantos, uma diversidade de povos, unidos por um mesmo objetivo: DEFENDER O DIREITO DE SER E VIVER EM SEUS TERRITÓRIOS.

2. Exigimos o respeito do direito originário de todos os Povos Indígenas do Brasil de estar e permanecer nos seus territórios e levar seus modos de vida, resistindo assim ao extermínio e ao genocídio que tem sofrido até o dia de hoje.

3. Conclamamos a toda a sociedade brasileira a não compactuar com a postura antiética de quem quer se apropriar de aquilo que pertence a outra pessoa ou coletividade e exigir indenização quando se é obrigado a sair de essa invasão ilegal.

 

Santarém-PA, 24 de agosto de 2021.

 

Assinam a nota as seguintes entidades:

Grupo de Defesa da Amazônia, GDA

União de Entidades Comunitárias de Santarém, UNECOS

Associação de Defesa dos Direitos Humanos e Meio Ambiente na Amazônia – ADHMA

Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais de Santarém, AMTR

Associação das Mulheres Doméstica de Santarém, AMDS

Conselho Indígena Tapajós-Arapiuns, CITA.

Conselho Indigenista Missionário, CIMI, Regional Norte II

Movimento Tapajós Vivo, MTV

Pastorais Sociais da Arquidiocese de Santarém,

CRB, Conferência de Religiosos-as do Brasil – Núcleo de Santarém

Custódia Franciscana São Benedito da Amazônia

Comissão Pastoral da Terra da Arquidiocese de Santarém, CPT

Projeto Saúde Alegria, PSA

Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional, FASE

Associação Franciscana de Maristella do Brasil

Sindicato dos Trabalhadoras e Trabalhadores Rurais, Agricultoras e Agricultores Familiares do Município de Santarém -STTR-STM

Vivat Internacional – Brasil (Entidade de Direitos Humanos diante da ONU)

Conselho Pastoral de Pescadores -CPP, da Arquidiocese de Santarém

Caritas do Brasil – Arquidiocese de Santarém

Terra de Direitos, TD

Sociedade para Pesquisa e Proteção ao Meio Ambiente, SAPOPEMA

Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Santarém, CJP

Companhia de Jesus – Jesuítas Santarém

Congregação do Preciosíssimo Sangue

Sindicato de Trabalhadores da Educação Pública de Santarém, SINTEPP-STM

Sindicato de Trabalhadores da Educação Pública – Regional Oeste do Pará, SINTEPP – Regional Oeste

Área Pastoral São Mateus da Arquidiocese de Santarém

Associação de Moradores do Bairro Pérola do Maicá, AMBAPEM

Instituto Uaná de Tecnologia Social

Prof. Rui Harayama do Instituto de Saúde Coletiva UFOPA

Paróquia do Perpetuo Socorro – Santarém

Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais do Oeste do Pará e Baixo Amazonas – MOPEBAM

Sindicato dos Trabalhadores em Saúde no Estado do Pará, SINDSAUDE

Sindicato dos Urbanitários do Pará, STUPARA – Regional Santarém

Federação das Associações Moradores e Organizações Comunitárias de Santarém- FAMCOS

Associação de Moradores do Bairro Pérola do Maicá, AMBAPEM

Associação de Moradores do Bairro da Liberdade, AMBAL.