EucarisAmaz_destaque

As palavras da Laudato Si’ e da Querida Amazônia sobre a Eucaristia

O presente texto tem como intenção mostrar a presença e conceituação de Eucaristia na Laudato Si’ e na Querida Amazônia. Aldazábal (2013), descreve a Eucaristia como o sacramento central da comunidade cristã, o alimento sacramental dos cristãos. A palavra Eucaristia provém da junção das expressões gregas eu (bom) e charis (graça), significando boa graça e ação de graças. Recordamos que muitas vezes os evangelhos narram o gesto de Jesus em dar graças, especialmente na ceia pascal. E, conforme os evangelhos sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas) e Paulo, o Senhor transmitiu à comunidade a missão de celebrar o sacramento do amor. 

A eucaristia deve ser principalmente entendida como celebração do mistério pascal, isto é, vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus. É isso que celebramos e anunciamos, aqui e em todas as partes do mundo. A eucaristia também representa encontro, comunhão, participação, entrega, escuta e partilha em clima festivo.

 

Missão São Francisco do Rio Cururu. Foto: Frei Andrei Anjos, OFM.

 

Eucaristia segundo a Laudato Si’

A   carta encíclica Laudato Si’ (FRANCISCO, 2015), sobre o cuidado com a Casa Comum, no capítulo VI, fala sobre educação e espiritualidade ecológica. Essa parte da encíclica se divide em nove pontos, no entanto, nos deteremos mais no sexto ponto: Os sinais sacramentais e o descanso celebrativo. O capítulo recorda que Deus preenche todo o universo que encontra nele seu desenvolvimento e podemos reconhecer esses rastros divinos no cosmos. E o Papa Francisco pontua que “os sacramentos constituem um modo privilegiado em que a natureza é assumida por Deus e transformada em mediação da vida sobrenatural”.

Tratando especificamente da Eucaristia, a Laudato Si’ fala da importância que a criação encontra nesse sacramento, visto como “sua maior elevação”, o seu apogeu (n. 236). É uma manifestação sensível da graça. Uma bela expressão do Deus encarnado que faz-se refeição por meio e para a sua criatura. São Francisco de Assis, na carta a toda Ordem, convidava também toda a humanidade e a terra inteira a ficarem pasmos diante dessa grande humildade divina. O Senhor do universo, presente na forma modesta do pão. Do mesmo modo, o Papa Francisco acentua que na Eucaristia, o Senhor chega ao nosso íntimo em um “pedaço de matéria”. Assim, podemos achá-lo em nosso mundo.  

Na Eucaristia, a criação se une ao Verbo encarnado para dar graças a Deus. Esse sacramento é, conforme acentua a encíclica, um ato de amor cósmico. Sempre que celebrada, em qualquer parte do planeta, ela é realizada “sobre o altar do mundo”. Na celebração eucarística temos o encontro entre o céu e a terra, em um abraço divino a toda criação. A celebração da Eucaristia ocupa lugar importante no domingo, dia do Senhor, destinado à celebração e descanso. Desse modo, Eucaristia fonte e cume, ou luz e motivação, para o cuidado com a casa comum e com a ecologia integral. Ela, “encoraja-nos a assumir o cuidado da natureza e dos pobres” e “leva-nos a ser guardiões da criação inteira”.

 

Missão São Francisco do Rio Cururu. Foto: Frei Andrei Anjos, OFM.

 

Eucaristia na Querida Amazônia

A exortação apostólica pós-sinodal Querida Amazônia (FRANCISCO, 2020) apresenta a Eucaristia dentro do sonho eclesial (Capítulo IV). O documento aborda a Eucaristia dentro dos itens sobre a inculturação e vida das comunidades amazônicas. No número 74, podemos ler, diante da misteriosa presença de Cristo na Amazônia e dos caminhos de inculturação, que “a Eucaristia assume os elementos do mundo dando a cada um o sentido do dom pascal”. A Eucaristia “pascaliza” o universo. Encontramos assim, a Páscoa amazônica na Páscoa de Cristo e vice-versa. 

Ainda abordando a inculturação litúrgica, o item 82 retoma as palavras da Laudato Si’ sobre a motivação para preocupação ecológica que decorre da celebração eucarística. Mas também amplia com as seguintes palavras: “Isto permite-nos receber na liturgia muitos elementos próprios da experiência dos indígenas no seu contacto íntimo com a natureza e estimular expressões autóctones em cantos, danças, ritos, gestos e símbolos”. Reconhece ainda que poucos avanços foram dados no que tange à inculturação litúrgica na região.  Em “a inculturação do ministério”, ecoa a preocupação com uma Igreja de rosto amazônico e que seja de fato presença, garantindo maior frequência na celebração da Eucaristia (QA, 86). Esse clamor de comunidades amazônicas também foi  frisado no documento de Aparecida. Querida Amazônia preconiza que não somente se precisa garantir constância de celebrações, mas ministros que possam presidir a Ceia do Senhor com uma compreensão e sensibilidade às culturas amazônicas. No parágrafo seguinte, a resposta ao apelo vem com a afirmação de que o sacramento da Ordem é a habilitação para presidir à Eucaristia e que os presbíteros são sinais do Cristo Cabeça. E reconhece que na Amazônia “é preciso encontrar um modo para assegurar este ministério” ordenado. E reforça que “é urgente fazer com que os povos amazônicos não estejam privados do Alimento de vida nova”. 

Nos pontos do item “comunidades cheias de vida” a exortação recorda a Lumen gentium (n.3), apresentado a Eucaristia como significado e realização da unidade da Igreja. Celebrando a Eucaristia nos tornamos próximos, verdadeiramente irmãos e irmãs. Esse sacramento é a comunhão que acolhe a múltipla riqueza de dons e carismas no coração das comunidades amazônicas. A Eucaristia é ponto de chegada e partida para o desenvolvimento de uma riqueza multiforme (QA, 92). O documento é contundente em afirmar que não basta uma grande quantidade de ministros para celebrar a Eucaristia sem “suscitar uma nova vida nas comunidades” (QA, 93). E o número 101, no trecho sobre o dom das mulheres, parece querer enfatizar o ministério dos presbíteros nas seguintes palavras: “Jesus Cristo apresenta-Se como Esposo da comunidade que celebra a Eucaristia, através da figura de um varão que a ela preside como sinal do único Sacerdote”.

 

Uma só será a mesa 

Os dois escritos do magistério do Papa Francisco apresentam a preocupação entre a relação fundamental da liturgia com a vida. Na Laudato Si’ vemos o cuidado e construção de uma espiritualidade ecológica que aprende pela celebração dos sagrados mistérios. Já em Querida Amazônia temos o sonho eclesial de uma Eucaristia com rosto amazônico e a questão concreta da escassez de celebrações eucarísticas e ministros que as presidam. Ambos os textos enfatizam o caráter de importância da Eucaristia na vivência cristã diante das crises ecológicas. Com a Eucaristia aprendemos a doação e gratuidade frente aos dons da Casa Comum. Certos de que em cada Eucaristia na Amazônia e no altar do mundo elevamos a gratidão por tantas maravilhas para a glória do Pai. E igualmente fortalecemos o compromisso com os gritos da terra e dos pobres. Outros aspectos podem ainda ser mais amplamente aprofundados, mas no momento acreditamos que o objetivo de expor o conteúdo referente a Eucaristia nos documentos pesquisados foi alcançado.  

 

 – Fábio Vasconcelos, OFM