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Frades noviços da Custódia recebem o hábito franciscano

Foto: Noviciado São Benedito, o mouro.

 

No último domingo, dia 27 de março, 4º Domingo a Quaresma, atendendo ao convite da liturgia à “Alegria” pela proximidade da Páscoa, os frades noviços do noviciado São Benedito, o Mouro (Montes Claros-MG), receberam o hábito franciscano. Entre eles estão seis frades noviços da Custódia São Benedito da Amazônia, que transcorrem esse ano formativo na Província Santa Cruz.

A celebração foi presidida por Frei Hilton Farias, OFM, ministro provincial da Província Santa Cruz, e também contou com a participação dos frades que compõem a fraternidade formativa e Frei John of God Araújo, OFM, Secretário para a Formação e Estudos da Custódia São Benedito da Amazônia.

 

 

O rito da vestição ocorreu na celebração da Hora Sexta, da Liturgia das Horas. Terminada a leitura breve, iniciou-se o rito com a invocação do Espírito Santo. Em seguida, os noviços expressaram o pedido para serem admitidos à recepção do hábito franciscano. Frei Hilton fez uma breve homilia, na qual falou sobre a importância do hábito para a Ordem dos Frades Menores e exortou os noviços a usá-lo em sinal de penitência e adesão à forma de vida iniciada por Francisco de Assis. Após a benção do hábito, o ministro provincial revestiu os noviços com o burel franciscano, dizendo a cada um: “despede-te do homem velho e reveste-te do homem novo criado à imagem do Cristo ressuscitado, na verdade e na caridade”. A celebração encerrou-se com a oração conclusiva da hora canônica.

São noviços da Custódia São Benedito:

  • Frei Antônio Magno da Silva Lima, OFM
  • Frei Felip Barbosa da Luz, OFM
  • Frei Gabriel Dezincourt de Souza, OFM
  • Frei Juan Kaio da Silva Arruda, OFM
  • Frei Leandro Kamal Tomé Diniz, OFM
  • Frei Pedro Olavo Ramos da Silva, OFM

 

 

Sobre a trajetória dos noviços

Desde janeiro deste ano, os seis jovens noviços estão vivenciando o Ano da Graça na Província Santa Cruz, que colabora com a formação durante a etapa do noviciado. Segundo os documentos da Ordem dos Frades Menores, o noviciado é o tempo em que o noviço começa a vida na Ordem, continua o discernimento e o aprofundamento da própria decisão de seguir a Jesus Cristo na Igreja e no mundo de hoje segundo o espírito de São Francisco, conhece e experimenta mais profundamente a forma de vida franciscana.

Rezemos pela perseverança e fidelidade dos frades noviços da Custódia!

– Texto: Frei John of God, OFM.

– Fotos: Noviciado São Benedito, o mouro.

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Frei Cosme Spessotto, OFM:  o beato franciscano que viveu em solo latino-americano 

Arte: Frei Fábio Vasconcelos, ofm.

 

No último dia 22 de janeiro, na área da catedral São Salvador em El Salvador, foi celebrada a beatificação do venerável Frei Cosme Spessotto, OFM, juntamente com Pe. Rutílio Grande, jesuíta, e os Leigos Manuel Solórzano e Nelson Rutilio Lemus. O presidente da eucaristia foi o cardeal Gregorio Rosa Chávez, auxiliar de San Salvador e representante do Papa Francisco para essa liturgia, aproximadamente 6.000 pessoas, que observaram todos os protocolos em virtude da pandemia, participaram da celebração. 

Frei Cosme foi padre missionário italiano na Centroamérica. Serviu ao povo salvadorenho por trinta anos e esteve no país centro-americano desde 1950. Tinha 57 anos quando sofreu o martírio em meio a guerra civil salvadorenha em 1980, conflito que começou em 1979 e findou em 1992. Desta maneira, Frei Cosme foi instrumento de paz no meio de um contexto de guerra. Ficou marcado como um mártir da caridade, um cultivador da vinha do Senhor e um defensor dos últimos da sociedade. 

 

“Morrer como mártir seria uma graça que não mereço”

 

O martírio de Frei Cosme ocorreu na paróquia dos frades menores de San Juan Nonualco, assassinado a tiros enquanto rezava. Na tarde de 14 de junho de 1980, após a missa, o franciscano foi rezar junto do sacrário e homens armados invadiram a igreja atentando contra a vida do missionário. O sangue de Frei Cosme foi derramado junto do altar, como pastor que se doa pelo rebanho. O fato ocorreu na igreja paroquial que ele, juntamente com os comunitários, fizeram com tanto esforço.

Filho de uma família de trabalhadores rurais, nasceu em Mansue (Treviso, Itália), em 28 de janeiro de 1923. Abraçou a vida dos frades menores em 1939. Recebeu a permissão para ser missionário na China em 1948, porém, circunstâncias políticas o impediram de ir, por isso seus superiores resolveram enviá-lo para El Salvador. Foi pároco na paróquia San Juan Nonualco  por  27 anos, construindo uma nova igreja e escola para os jovens mais pobres. 

O seu grande compromisso pastoral foi com a oração e a caridade, especialmente quando visitava as famílias, pregava o santo evangelho e distribuía o alimento corporal. Seu zelo pelos pobres foi entendido como apoio aos guerrilheiros de esquerda. A sua culpa foi defender catequistas acusados e detidos injustamente, sepultar corpos abandonados de guerrilheiros mortos em combate e receber sacramentalmente um penitente membro da guerrilha. 

 

Arte: Frei Fábio Vasconcelos, ofm.

 

Mártir do povo, semente de fraternidade e paz

O Cardeal Rosa Chávez destacou que entre o povo presente na beatificação, estavam humildes camponeses que exultaram de alegria no reconhecimento da santidade daqueles servidores do Reino. Ele também enfatizou o quanto o martírio na América Latina está relacionado com o testemunho do evangelho e da opção clara pelos pobres. Nas palavras do representante do Papa, percebemos que o sangue dos mártires é uma profecia para continuarmos o sonho de uma pátria reconciliada e pacífica. Por sua vez, o Papa Francisco, depois da oração dominical do Angelus, suplicou que o exemplo heróico dos mártires desperte corajosos agentes de fraternidade e paz. 

 

Fábio Vasconcelos, ofm

Fontes: 

https://ofm.org/es/blog/beatificacion-del-venerable-cosme-spessotto-ofm/

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2022-01/el-salvador-missa-beatificacao-rutilio-grande-martires.html

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Vocacionados da Custódia São Benedito falam sobre votos religiosos em encontro vocacional

Captura de Tela do Encontro

 

Os jovens vocacionados à vida religiosa franciscana na região amazônica têm mensalmente se encontrado para momentos de animação vocacional. Esses momentos acontecem sempre no último domingo de cada mês, às 18h – horário de Brasília. Os jovens se encontram com os frades que compõem o Cuidado Pastoral das Vocações (CPV) para refletirem sobre um tema específico. O encontro de outubro foi realizado no dia 31 através do Google Meet. Além dos Frades, quatro jovens participaram desta edição dos encontros vocacionais. Eles são jovens que já estão sendo acompanhados pelos animadores vocacionais das fraternidades e que se conectam de diversos lugares da região amazônica. Por meio de uma pequena dinâmica de apresentação, o grupo pode conhecer um pouco sobre a vida de cada um. 

 Frei Erlison Campos, diretamente de Chicago (EUA), foi quem conduziu o encontro deste domingo que teve como tema “Vem e segue-me em obediência, pobreza e castidade”. A oração inicial foi embalada pelo canto “A palavra do Senhor” e pela proclamação da Palavra. A partir do Evangelho de São Marcos 10, 17-22, Frei Erlison, levou os jovens participantes a meditarem sobre os desafios de deixar tudo, sair da zona de conforto e seguir Jesus como pobre, casto e obediente. 

 

Captura de Tela do Encontro

 

De acordo com a meditação do assessor do encontro, antes que os “conselhos evangélicos” sejam algo que os discípulos de Jesus praticam, eles são algo que o próprio Jesus é. Eles são o que nós, como também os primeiros discípulos, vemos quando contemplamos aquele que morreu e ressuscitou. Quando os discípulos viram Jesus, seu mestre, lavando seus pés, ou o ouviram chorando sobre Jerusalém, ou o viram tomar todas as decisões nas profundezas da oração a seu Pai… viram o que muitos outros perceberiam depois deles: Jesus é o pobre, ele é o casto, ele é o obediente. Os gestos de Jesus,  como  no encontro com o jovem rico, mostram o olhar amoroso do Mestre e a entrega a qual todos são convidados a seguir. Jesus convida para uma entrega que não é uma adição, mas, um compartilhar da vida e de tudo que se tem. 

A realização e alegria são vividas no desapego total. O homem, do qual o Evangelho referido fala, perde o tesouro do reino pelo apego aos bens terrenos. O esvaziamento e a busca pelo seguimento de Jesus se dão, particularmente na vida religiosa, na pobreza, obediência e castidade. Cristo é o maior sinal desses conselhos, que por ele foram vividos em profundidade. 

Fiel à sua missão salvadora, Jesus “tornou-se obediente até a morte, morte de cruz” (Filipenses 2: 8). Ele permitiu que toda a sua vida e tudo nela procedesse das mãos de seu pai. O mesmo dom radical ilumina seu amor virginal – irrestrito, livre, fiel e exclusivo – por sua única Esposa, a igreja, por quem ele “se entregou” na cruz (Efésios 5:25). Não é menos evidente em sua pobreza, a disposição radical do filho de Deus de se tornar “pobre por sua causa”, mesmo morrendo para “que pela sua pobreza você se torne rico” em seu lugar (2 Coríntios 8: 9). Em tudo isso, vemos o único voto de amor de Jesus, as três dimensões do dom filial que expressa o amor do filho não apenas por nós, mas pelo Pai na unidade do Espírito Eanto”. O resultado da somatória dos três conselhos resulta no amor, afirmou o frade. Amar a Deus e ao próximo se ligam com os conselhos evangélicos. Na vida de Jesus se observa um entrelaçamento dessas três dimensões. Castidade, obediência e pobreza são indissociáveis e expressão do voto do Amor. Em suma, de acordo com a reflexão do frei Erlison, pobreza, obediência e castidade é igual a AMOR. 

 

Captura de tela do Encontro. Momento da exposição do tema.

 

Obediência: nos lembra que Deus está fora e dentro de nós, um voto que nos remete a humildade. Precisamos abordar o mundo com um coração aberto e humilde ao mundo e aos outros. Em comunidade se busca não o caminho da arrogância e da escuta somente de si. “Quem obedece não erra” recordou o frade. A obediência é um sinal que aponta para Deus. Na correção fraterna temos um instrumento positivo para o crescimento no voto de obediência. Obediência por amor se desvela como um outro modelo de entrega. 

O voto de pobreza: ou de simplicidade, recorda o amor descomplicado e incondicional de Deus, que de não põe barreiras. Nada pode nos interpor a Deus e ao serviço dos irmãos. Mais uma vez se recordou o desejo de poder do homem rico mencionado no Evangelho. A pobreza nos inspira gratuidade e generosidade. O sem nada de próprio é uma marca forte do franciscanismo. Esse voto consiste em não absolutizar os bens. Em vista da missão devemos colocar tudo.

A castidade: expressa o amor à fidelidade de Deus. Esse voto manifesta a honra das pessoas e ao Cristo nela. A gentileza, reciprocidade e respeito emergem no aprofundamento da vivência desse conselho evangélico. A castidade, em união com os demais votos, é oblativa, e sinaliza o amor sem reserva de Deus pelos seres humanos. Entregar-se de todo coração é um ponto muito central na vida franciscana.       

Os jovens participantes puderam se engajar na reflexão através da socialização de algumas perguntas e respostas sobre a temática. Os vocacionados enfatizaram a importância desses votos. A interligação dos três votos foi destacada nas partilhas. Os votos foram apresentados como desafiadores se colocando como profecia diante da sociedade atual. As dificuldades no mundo presente questionam a vivência de cada um deles. A vida na contemporaneidade tem caminhos que muitas vezes desafiam a vida consagrada e se contrapõem aos votos religiosos. Todos pareciam ter muitas curiosidades sobre o tema, mas foram encorajados pelo Frei Erlison a se deixar mover pelo Espírito de Deus que nos dá as respostas no momento certo. O tema do seguimento de Jesus e a observação dos conselhos evangélicos é algo que é refletido por toda a vida daquele que ingressa na vida religiosa.

Frei Marcos agradeceu aos frades que preparam o encontro, Frei Erlison e Frei Vagner. Destacou ainda que a vivência dos votos é uma experiência de liberdade. Frei Erlison concluiu o encontro com uma oração temática vocacional, de autoria do monge Thomas Merton e com a bênção. Frei Marcos, retomou a palavra fazendo a despedida e informando que o próximo está previsto para o dia 28 de novembro, último do mês.

 

Frei Erlison Campos, OFM

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Profecia: substantivo feminino

 

Mensagem do Custódio para o Domingo da Vocação Religiosa Consagrada

No terceiro domingo de agosto, mês das vocações, celebramos o dia da Vida Consagrada, no contexto da solenidade da Assunção de Nossa Senhora. A Virgem Maria é modelo de consagração e seguimento, como nos atesta a Exortação Apostólica “Vita Consecrata”:  Maria é aquela que, desde a sua imaculada conceição, reflete mais perfeitamente a beleza divina. “A relação com Maria Santíssima, que todo fiel tem em consequência da sua união com Cristo, resulta ainda mais acentuada na vida das pessoas consagradas. (…) Em todos os institutos de vida consagrada existe a convicção de que a presença de Maria tem uma importância fundamental, quer para a vida espiritual de cada uma das almas consagradas, quer para a consistência, unidade e progresso da inteira comunidade.

Maria é, de fato, exemplo sublime de perfeita consagração, pela sua pertença plena e dedicação total a Deus.  Escolhida pelo Senhor, que n’Ela quis cumprir o mistério da Encarnação, lembra aos consagrados e consagradas o primado da iniciativa de Deus. Ao mesmo tempo dando o seu consentimento à Palavra divina que n’Ela Se fez carne, Maria aparece como modelo de acolhimento da graça por parte da criatura humana”. (VC 28) Nós, consagrados e consagradas, contemplamos em Maria e n’Ela encontramos o nosso modelo de entrega total e consagração a Deus e ao Seu Reino.

Neste dia da Vida Consagrada de 2021, eu gostaria de homenagear de modo especial a Vida Consagrada feminina. Às vésperas desta data, no dia 13 de agosto, recebemos a notícia, aqui em Santarém (PA), do falecimento de uma mulher consagrada, que doou grande parte da sua vida aqui na Amazônia, mais especificamente nesta cidade de Santarém, cuidando especialmente da saúde, da vida de pessoas idosas, enfermos e, muito particularmente, de outras pessoas consagradas, missionárias, aqui na nossa região. Trata-se da Ir. Alice Colleta Reckamp, da Congregação das Irmãs Filhas do Sagrado Coração de Jesus e Imaculado Coração de Maria, que foi missionária franciscana na região por 44 anos, dos quais a maior parte foi dedicada aos serviços no Hospital-Maternidade Sagrada Família. Ir. Alice era biomédica e se dedicava bastante aos trabalhos no laboratório de análises clínicas do hospital. Seu testemunho de doação, desprendimento, dedicação, cuidados pela vida e saúde das pessoas, discrição, simplicidade… e as outras pessoas que a conheceram podem acrescentar outras virtudes à lista.  Ir. Alice simboliza inúmeras outras mulheres consagradas, que deram a vida, frequentemente de forma anônima, sem “marketings” de qualquer tipo, com total dedicação, em espírito de obediência, pobreza e sem se apropriar de nada, no exercício totalmente gratuito da Missão, cumprindo o mandato de Jesus: “De graça recebestes, de graça deveis dar” (Mt 10, 8).  Lembro com carinho e respeito da Ir. Alice, e me vêm à memória uma galeria inumerável de imagens de consagradas que marcaram a minha vida, desde as primeiras catequistas, na Escola Ezeriel Mônico do Matos, as Irmãs Adoradoras do Sangue de Cristo, que moravam no Colégio São Raimundo. Depois, conheci aquelas da mesma Congregação, que marcavam presença no Seminário São Pio X, em Santarém, como professoras ou na cozinha, produzindo conhecimento e alimentos para um pequeno batalhão de Frades e Seminaristas. Entre as que atuavam junto ao Seminário, duas foram particularmente marcantes: Ir. Agostinha e Ir. Filipa. Mas, muitas outras passaram pela vida daquele educandário, onde estudaram várias gerações de rapazes de toda a região amazônica.

A vida consagrada é profecia do Reino de Deus. Profecia é um substantivo feminino, não apenas na gramática, mas especialmente na vida consagrada feminina, nas tantas mulheres consagradas, que ao longo dos tempos, têm dado testemunho profético nesta imensa Amazônia. Lembro aqui de mais alguns nomes, apenas para ilustrar, sem esquecer que são muitas pessoas.  As missões seriam impensáveis e, em muitos casos, impossíveis, sem a presença das mulheres consagradas.  E nós, como Igreja, precisamos manifestar maior e mais justo reconhecimento às Mulheres Consagradas pela grandeza de sua presença e ação na missão evangelizadora da Igreja.

Quando falo de vida consagrada feminina profética, lembro de pessoas corajosas, como a Ir. Regina Watchowska, que conheci ainda no vigor de sua juventude, trabalhando com o Frei Lucas Tupper, na Clínica dos Pobres, em Santarém, depois em Itacoatiara, de onde foi expulsa e, por fim, na periferia de Manaus (AM), já bem idosa, trabalhando com mulheres pobres e com menores infratores, que ela acompanhava na qualidade de assistente social. Era nutrida pelo compromisso com os pobres, pelo Evangelho e pela amizade com as outras pessoas consagradas, especialmente no âmbito da CRB – núcleo de Manaus.  Um testemunho eloquente de coragem, de desprendimento, de pobreza e entrega total à missão. Ir. Regina era uma espécie de “freelancer missionária”, da Congregação das Franciscanas de São José.  As Missionárias da Imaculada Conceição (SMIC), desde a sua fundação, há pouco mais de um século, trabalhando na saúde, na educação, na pastoral, na Missão São Francisco do Rio Cururu, contam com grandes figuras missionárias, que marcaram a vida de muita gente aqui na região. Impossível lembrar dos nomes de todas, mas vêm-me à lembrança as irmãs que conheci na Missão São Francisco, no Cururu: Ir. Conceição, Ir. Emiliana, Ir. Arimateia, Ir. Helena…  Atualmente, as irmãs, como em outras épocas de crise, seguraram a presença missionária entre os Munduruku, com as jovens Ir. Cláudia e Ir. Débora.  Mulheres corajosas e proféticas!

Em Manaus, reencontrei muitas irmãs Adoradoras do Sangue de Cristo, já idosas, aposentadas, depois de muitos anos de trabalho em várias áreas da Amazônia, especialmente na Prelazia de Santarém.  Elas trabalharam em parceria com os frades em vários lugares. Como morávamos relativamente próximo à casa das Irmãs Adoradoras, durante muito tempo eu ia celebrar a missa dominical com elas nas tardes de sábado, na Capela do Colégio.

Ainda na capital amazonense, encontramos duas outras congregações femininas, ambas franciscanas, que marcaram muito a minha vida e experiência como consagrado: as Franciscanas Missionárias de Maria, com quem tivemos uma convivência muito fraterna e compartilhamos a missão. Muitas das irmãs já eram idosas e a congregação dava um testemunho muito bonito de coragem, realizando um processo de reestruturação por causa da redução do número de religiosas e por causa da idade avançada de muitas irmãs. Na convivência com elas, descobri a beleza da história daquelas missionárias, ao longo de mais de oitenta anos, dedicando-se especialmente à evangelização nos interiores do Amazonas e aos cuidados com a saúde dos hansenianos.  Cresci muito na minha vocação franciscana e presbiteral na convivência com as irmãs FMM. São exemplos de mulheres corajosas, decididas, proféticas… inesquecíveis! Sou muito grato a elas por tudo o que me ensinaram em nossos encontros semanais, nas longas conversas à mesa ou nas serestas que fazíamos após o jantar.  Elas fizeram a ponte para a nossa entrada em Manaus, em 1997. As FMM nos acolheram e as Filhas de Sant’Ana nos cederam uma casa no Retiro Sant’Ana durante um ano, enquanto procurávamos um lugar em Manaus. As Franciscanas de Nossa Senhora Aparecida ou “Aparecidinhas”, que marcaram presença na área missionária de Nossa Senhora dos Navegantes, onde também servíamos pastoralmente, são outra presença feminina muito marcante na minha vida e missão como consagrado. Nós morávamos quinze quilômetros distante da área missionária, mas as irmãs “Aparecidinhas” moravam no Mauazinho, onde estava a sede da área missionária.

As Irmãs de Nossa Senhora Aparecida, além do Mauazinho, tinham também uma presença no Careiro da Várzea, do outro lado do rio – encontro dos Rios Negro e Solimões – e cuidavam de bem uma centena de comunidades ribeirinhas. É a congregação com o mais forte espírito missionário que eu conheci. As irmãs eram verdadeiras militantes da dimensão missionária, engajadas ativamente nos organismos responsáveis pelas missões na Arquidiocese de Manaus. Eram as primeiras e mais entusiastas participantes e pregadoras de missões populares. Vêm-me a lembrança alguns nomes, apesar dos anos que já se passaram desde então:  Idelsa, Iriete, Celia, Lidia…

Outras congregações femininas chegaram à esta região, nos últimos cinquenta anos, como as queridas Irmãs Franciscanas de Maristela, que têm marcado presença em algumas Igrejas locais da Amazônia, enriquecendo a presença carismática e profética da vida consagrada. E mais recentemente, sei de outras congregações que chegaram e estão atuando na evangelização, nos interiores da Diocese de Santarém. Cada grupo que chega, traz sua experiência e enriquece a Igreja e a própria vida consagrada com os seus carismas próprios.

Faço alguns acréscimos aqui neste texto, atualizando-o com a menção dos nomes de outras pessoas, que certamente não esgotam as lembranças de mulheres consagradas que considero proféticas, entre as muitas com quem tive contato direto ao longo da minha vida. Depois de concluir este texto, escrito um pouco às pressas, às vésperas do dia 15 de agosto de 2021, lembrei de outras mulheres consagradas que marcaram muito a minha história: durante os tempos de estudante de filosofia, em Belém, e, mais tarde, como professor e participante ativo da CRB – Conferência dos Religiosos do Brasil, no núcleo de Manaus. Em Belém, desde 1979, conheci a Ir. Dorothy Stang. Eu trabalhava no escritório da CPT – Comissão Pastoral da Terra, setor de documentação e acompanhamento de áreas com conflitos de terras. Eu estava no início da minha década dos 20 anos. Quando chegavam grupos de “posseiros” ou lavradores que vinham buscar ajuda e assistência jurídica, denunciar conflitos de terras etc. Às vezes eu acompanhava os grupos nas brevíssimas audiências que o então Governador do Estado, Alacid Nunes, concedia aos lavradores e aos seus acompanhantes, geralmente nós da CPT e a assessoria jurídica. Muitas vezes eu vi a Ir. Dorothy, ainda no vigor da idade, acompanhando estes grupos, que vinha da região de Marabá e da PA-150, onde ela trabalhava com o Pe. Paulinho, um missionário da Congregação dos Oblatos de Maria Imaculada – OMI. O Comprometimento da Ir. Dorothy com as causas dos lavradores, posseiros, pequenos agricultores, durou longos anos, até o seu covarde assassinato, em Anapu, Pará, já em outro tipo de ação profética, que unia a causa dos trabalhadores do campo com a preservação ambiental e a defesa da floresta amazônica. Por coincidência, o assassinato dela aconteceu em 12 de fevereiro de 2005, quando estávamos em Ananindeua, na segunda etapa da escola de formadores da CRB. Na etapa anterior, de agosto de 2004, alguns dos participantes da escola testemunharam, na mesma Ananindeua, na casa das Irmãs do Coração Eucarístico, uma decisão de Ir. Dorothy, diante dos Bispos reunidos, de continuar o seu trabalho em Anapu, apesar de já estar sendo ameaçada de morte pelos madeireiros e exploradores criminosos da região de Anapu.  Ali, no mesmo escritório da CPT, em Belém, conheci também a Ir. Rebeca Spears, da mesma Congregação das Irmãs de Notre Dame, da qual também Dorothy fazia parte. Rebeca se dedicava à pastoral indigenista, no CIMI, junto ao Pe. Nello Ruffaldi e a equipe de missionários que atuavam no regional Norte II. Mulheres muito corajosas e decididas a ir até às últimas consequências no seu compromisso com os pequenos e oprimidos.

E agora uma recordação no campo acadêmico, no antigo CENESCH e atual ITEPES (Instituto de Teologia situado em Manaus), três mulheres consagradas teólogas foram muito significativas para mim, companheiras de trabalho na formação teológica para as Igrejas locais da grande Amazonia: Sônia, Bozena Stencil e Nilda Nair Reiner. Essas dedicadas estudiosas têm seu empenho registado nas vidas de um geração de teólogos e teólogas da região norte.

A todas as mulheres consagradas, corajosas e proféticas, vai a minha homenagem neste dia da Vida Consagrada! Somos muito agradecidos a Deus pelo dom que é a presença de vocês no meio do povo de Deus, especialmente aqui na Amazônia, tão necessitada de missionários e missionários generosos, corajosos e proféticos! Somos muito agradecidos pelas numerosas mulheres consagradas que deram suas vidas na missão, aqui nesta região. E somos muito agradecidos por vocês que continuam presentes e dando testemunho corajoso e profético da consagração total a Deus, no anúncio da Boa Nova do Reino.  Deus abençoe todas as Congregações Femininas com numerosas, santas e generosas vocações!

Frei Edilson Rocha, OFM

Custódio

Santarém, Pará, 15 de agosto de 2021

 

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Vida religiosa: presença eclesial nas periferias da Amazônia

Frades em atividade Pastoral na Cidade de Manaus-AM/ Maribeth Joeright

 

Mês Vocacional nos leva a refletir sobre as diferentes vocações e o que elas representam na vida do cristão, na vida da Igreja e também na vida da sociedade. Neste domingo, 15 de agosto, a Igreja do Brasil celebra o dia da Vida Religiosa, e isso tem que nos levar a refletir sobre esse modo de ser discípulos e discípulas no seguimento de Jesus.

Na Amazônia, a presença da vida religiosa sempre teve um papel decisivo. Durante séculos, os religiosos e religiosas representaram uma presença destacada, quase única, na evangelização de uma região onde as grandes distâncias e a diversidade de povos, culturas e realidades sempre foi um desafio a mais.

O padre Cláudio Perani falava de “estar onde, com e como ninguém quer estar”, um modo de vida assumido por muitos religiosos e religiosas na Amazônia. O jesuíta nascido na Itália, que nesta semana completou 13 anos do seu falecimento, considerado como um dos grandes profetas da Amazônia, promotor de iniciativas que levaram a vida religiosa a ser presença eclesial nas periferias geográficas e existências da Amazônia, ajudou a entender melhor o papel da vida religiosa no meio aos povos da região.

São muitas as histórias que contam os exemplos de vida entregada dos religiosos e religiosas na Amazônia. Recentemente, visitando o cemitério dos espiritanos em Tefé, vi como muitos missionários, a grande maioria chegados de longe, doaram sua vida. É admirável ver como muitos deles morreram ainda jovens, após pouco tempo na missão, inclusive dando sua vida, literalmente, para salvar a vida de outras pessoas. Esse é só um exemplo de tantos missionários e missionárias que definharam sua vida nos rios e florestas amazônicas.

 

Religiosos do Núcleo da CRB Santarém(PA) / Sabrina Gonçalves

Mas a vida entregada dos religiosos e religiosas na Amazônia não é só coisa do passado. Sua presença continua semeando vida em muitos cantos da região amazônica, no meio aos mais vulneráveis, acompanhando as vítimas de uma economia que mata, de projetos que só buscam favorecer os interesses de grupos de poder político e econômico.

Acompanhar a vida das comunidades indígenas e ribeirinhas, do povo da periferia, dos moradores de rua, das vítimas do tráfico de pessoas, das juventudes, e de tantas outras realidades e pessoas que lutam pela vida em plenitude, é um dos elementos presentes na Vida Religiosa que peregrina na Amazônia, especialmente na vida religiosa feminina, testemunha de compromisso encarnado no meio do povo e de doação para que todos tenham vida e vida em abundância.

Estamos diante de testemunhos de vida entregada até o fim, de gente que nunca mediu esforços, que colocou os outros na frente. Quando a gente se depara com missionários e missionárias que depois de 30, 40, 50 ou ainda mais anos de missão na Amazônia, continuam sendo semente de alegria na vida do povo, a gente entende que é Deus que chama e que a gente só responde à vocação recebida.

Luis Miguel Modino

Assessor de Comunicação CNBB Norte 1

Publicado originalmente em: CNBB Regional Norte 1